"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém" Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios

"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém [...]". (Carta do Apóstolo Paulo aos cristãos. Coríntios 6:12) Tudo posso, tudo quero, mas eu devo? Quero, mas não posso. Até posso, se burlar a regra; mas eu devo? Segundo o filósofo Mário Sérgio Cortella, ética é o conjunto de valores e princípios que [todos] usamos para definir as três grandes questões da vida, que são: QUERO, DEVO, POSSO. Tem coisas que eu quero, mas não posso. Tem coisas que eu posso, mas não devo. Tem coisas que eu devo, mas não quero. Cortella complementa "Quando temos paz de espírito? Temos paz de espírito quando aquilo que queremos é o que podemos e é o que devemos." (Cortella, 2009). Imagem Toscana, Itália.































terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Artigo sobre o BBB*

Luís Fernando Veríssimo


Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. [...] Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
[...] Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis?
Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores) , carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados.
Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia.
Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).
Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores). Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade.

*BBB - Big Brother Brasil

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Um filme para sociólogos

Fábio Viana Ribeiro*



Assim como veterinários não são obrigados a gostar de cachorros e gatos, nem todos os sociólogos podem se sentir atraídos pela idéia de estudar a sociedade capitalista em seus aspectos conjunturais e estruturais. A observação, que não é minha, mas sim de um antigo colega de graduação, e autor de um blog que hoje não existe mais[1], remete ao fato, óbvio, de que qualquer profissão permite uma variação bem maior de interesses que aquela prevista pelo senso comum. A frase, um tanto quanto “escatológica”, de nosso antigo e talentoso professor, “que já estava cansado de estudar sociologia careta, e que seu interesse era agora estudar coisas improváveis, como ‘mulher com pinto’”, resume bem a idéia e dispensa maiores explicações.
Do ponto de vista de sociólogos que não se interessam muito por “cachorros e gatos”, o mundo ao seu redor, inclusive seus próprios colegas de profissão, é antes de tudo um lugar muito divertido e interessante. Comparativamente, não é a todo momento que um sociólogo “tradicional” pode estudar o capitalismo: festinhas de aniversário, terminais de ônibus, aposentados que jogam baralho nas praças, golpistas profissionais, fã clubes, grupos religiosos estranhos, etc., em geral não costumam atrair muito a curiosidade de sociólogos sérios (a ausência de aspas é proposital). A não ser, claro, dentro de um contexto mais amplo, capaz de tornar tudo que em princípio poderia ser perturbador, desconcertante e surpreendente em coisas previsivelmente sérias. Para muitos outros sociólogos, todo o interesse começa aí.
Não são muitos os filmes capazes de chamar tão pouca atenção nas prateleiras das locadoras quanto “Adam”, título pouco sugestivo de um filme de 2009, dirigido por Max Mayer. Além do título, contribuem para sua “camuflagem” a capa e os (habitualmente infames) comentários da embalagem, sugerindo tratar-se de mais uma comédia romântica ou algo semelhante. Não é o caso.
Anda que nem mesmo algumas das raras sinopses que podem ser encontradas na internet sobre o filme mencionem o fato, o assunto central é uma relativamente rara síndrome, cujo personagem que dá título ao filme é portador. Considerada uma forma leve de autismo, a síndrome de Asperger se caracteriza, de forma geral, por um quase bloqueio das capacidades de interação social. Em termos médios, a grande maioria dos indivíduos, não portadores dessa síndrome, atribui continuamente significados às suas próprias ações; quase como, por analogia, o faz um morcego, para efeito de se movimentar no espaço. Não sendo localizado qualquer obstáculo, no caso dos morcegos, ou havendo percepção de que “aquilo pode ser feito”, no caso dos humanos, a ação é levada adiante. O detalhe mais importante a ser considerado nessa perspectiva é o fato de que tais significados são reflexivos (no caso dos humanos) e envolvem uma contínua avaliação a respeito do “objeto” a que se dirigem[2]. Seja numa conversa banal, no guichê de uma repartição pública, parado sozinho à espera do ônibus, etc., os significados que atribuímos às nossas ações (falando, agindo, dissimulando uma atitude, etc.) “inspiram-se”, necessariamente, nas expectativas que alimentamos em relação ao comportamento de outros indivíduos.
E eis aí o ponto que faz de “Adam” um filme muitíssimo interessante sob o ponto de vista de (alguns) sociólogos. Por não possuir pleno domínio sobre estes elementos básicos da interação social, um aspie[3] constitui-se num improvável e vivo exemplo de indivíduo que, mesmo tendo passado por um processo de socialização, não possui a capacidade, tipicamente social, de adaptar seu comportamento em função daquilo que percebe no outro. Ao contrário do autismo clássico, indivíduos portadores dessa síndrome são com frequência muito talentosos em algumas áreas do conhecimento, vivem uma vida normal, etc. Mas, ao mesmo tempo, encontram-se como que separados de todo o mundo social que os cerca.
Talvez o maior mérito do diretor de “Adam” tenha sido alcançar a dimensão de “incomunicabilidade” dentro da qual vive o personagem. Afinal, onde reside nossa capacidade de, num sentido profundo, compreender o outro? Não talvez apenas nas palavras, nem mesmo por meio da interação social; mas por uma outra capacidade, essencialmente humana e que se materializa por meio dos sentimentos. O que, afinal, nos eleva acima da condição de meros seres biológicos e sociais. Não talvez por acaso, as cenas mais belas do filme parecem sugerir o milagre desse encontro.
Especulações óbvias poderiam ser feitas, com maior ou menor grau de pertinência. De que a condição do homem moderno implica num individualismo e alheamento que são, em parte, características da própria síndrome de Asperger. Um sistema que produz seus próprios autistas. Ou ainda que, da mesma forma que a imensa maioria dos aspies são do sexo masculino, é também uma característica tipicamente masculina certa necessidade de isolamento – que em alguns casos chega a ser transformado em ideal de vida. Traço de comportamento muito raramente encontrado entre mulheres.
Mas novamente, não é o caso. Ao perder o pai, que era uma de suas únicas ligações com o exterior, o personagem encontra-se fechado dentro de dois mundos. O de sua incapacidade de interagir com outros indivíduos e, ao mesmo tempo, o de viver num mundo que pouco sabe e se interessa por sua própria existência (como todos os que vivem nos grandes centros sabem…). Sua única saída vem de sua vizinha; por outros motivos, quase tão distante do mundo exterior quanto ele próprio. A distância existente entre ambos, que seria um grande problema para a maioria das pessoas, termina se transformando na rara chance de deixarem o isolamento de suas vidas.

FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

[1] “Observador Sociológico”, de autoria do Prof. Carlos Augusto Magalhães.
[2] O que caracteriza, como se sabe, o conceito de ação social, de Max Weber.
[3] Nome pelo qual são conhecidos os portadores da síndrome de Asperger.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Quanto vale ou é por quilo?

Direção: Sérgio Bianchi (2005)

Por Marta Kanashiro



"O que vale é ter liberdade para consumir, essa é a verdadeira funcionalidade da democracia". Proferida pelo ator Lázaro Ramos – em "Quanto vale ou é por quilo?", filme de Sérgio Bianchi – a frase traz uma entre as muitas questões apresentadas pelo cineasta paranaense, que são fundamentais para aqueles que desejam refletir mais seriamente sobre desigualdade, direitos e capitalismo na atualidade.

Assim como em "Cronicamente inviável", Bianchi apresenta a realidade de forma tão crua e chocante que novamente a crítica o tem rotulado como niilista ou catastrofista, rótulos que tanto limitam a visão de realidades de fato existentes, quanto revelam o desejo de continuar mantendo-as recalcadas. Bianchi parece nos dizer que é impossível ficar diante ou atento a essa realidade de disparidades sem o choque ou o constrangimento, e que talvez essas sensações sejam de alguma forma produtivas para tirar algumas pessoas de um mundo mágico, recheado de slogans em prol da solidariedade e da responsabilidade social.

Livre adaptação do conto "Pai contra mãe" , de Machado de Assis, o filme traz à tona a permanência na atualidade de nosso passado escravista, deixando clara a impossibilidade de olhar o presente sem levar esse passado em conta, assim como as persistentes desigualdades econômicas, sociais e de direitos no país. Na medida em que o conto machadiano é adaptado para a atualidade – nas figuras de Candinho, Clara, tia Mônica e Arminda – Bianchi mostra o elo imprescindível com a História para uma visão crítica da atualidade.

No entanto, para aqueles que ainda não leram o conto de Machado de Assis, o elo fica realmente claro quando Bianchi utiliza como recurso os paralelos com as crônicas de Nireu Cavalcanti, do final do século XVIII, extraídas do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Os cortes entre a adaptação do conto e esses documentos do Arquivo Nacional produzem quase que choques sucessivos no espectador, na medida em que igualam a violência, a noção de que pessoas podiam ser propriedade de outras, ou a lógica do lucro do sistema de escravidão no Brasil, ao que hoje é produzido com relação aos excluídos e marginalizados em nossa sociedade.

Mas se por um lado o filme afirma que há reminiscências que nos são constitutivas, também abarca sua incorporação e complexificação nos dias atuais: a miséria ou a prisão como economicamente rentáveis e geradoras de emprego, a solidariedade como empresa ou até mesmo a denúncia como um negócio. No atual jogo "democrático" e de "participação" da sociedade civil em prol de demandas não atendidas pelo Estado, as ongs - ou o terceiro setor, como se convencionou chamar - aparecem no filme funcionando como empresa, incorporando seu discurso típico e objetivando, enfim, o lucro. Responsabilidade social ou solidariedade são exaltadas e mobilizadas como marketing dessa nova indústria que gerencia a miséria e os miseráveis. A crítica ácida de Bianchi recai, portanto, sobre aquilo que muitos têm entendido como solução ou alternativa para os dilemas inerentes ao capitalismo – as ONGs.

Sem freios, tal acidez pode voltar-se inclusive sobre o próprio filme que, no limite, ao tematizar o uso econômico da miséria, faz da denúncia seu negócio. Mas essa possível autofagia encontra como limite o choque do espectador, a proposta de retirá-lo daquele mundo mágico, da inércia confortante dos que criticam e apresentam uma nova proposta ou solução ao final. Sem solução, sem proposta, Bianchi termina o filme com dois finais possíveis, dando a entender que mesmo que não sejam apenas aquelas as opções, é o espectador que dará novos desfechos para a nossa História.

Ao final da sessão, na sala 4 do Espaço Unibanco, na capital paulista, a platéia parecia não conseguir se erguer das poltronas, o silêncio era fúnebre, de fato alguém tinha retirado o nosso chão. Precisávamos reconstruí-lo para poder nos erguer. Uma dupla de senhoras tentou resolver a questão da forma mais fácil dizendo: "O filme é pura promoção do conflito". Pois é, ficou tudo tão evidente que para alguns é preferível imaginar que o conflito ainda não está posto no cotidiano brasileiro.


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Giordano Bruno (1548 - 1600)


Para Bruno o universo é constituído de um único corpo, mas as coisas singulares são ordenadas com precisão e estão conectadas com todas as outras coisas. O que fundamenta essa organização são as ideias, que são princípios eternos e imutáveis. Cada coisa particular é uma imitação, uma imagem ou a sombra da realidade ideal que a orienta. Nossa mente também segue essa estruturação universal e nossas ideias não são eternas e imutáveis, mas são o reflexo, o vulto das ideias que não se alteram.

Mesmo nossas ideias sendo a sombra de algo imutável, através delas podemos chegar ao verdadeiro conhecimento se encontrarmos um método que consiga assimilar e compreender a complexidade da realidade. Esse método tem que ter a capacidade de entender essa estrutura universal ideal que sustenta todo universo.

Para Giordano o método para entender a unicidade e a multiplicidade do universo é a memória. A memória nos permite impedir que nossa mente se confunda com o grande número de coisas que existem no universo e com os conceitos e representações dessas coisas. Essas representações são sombras das ideias divinas e a memória serve para fixar em nossa mente essas imagens. Através de exercícios de memória podemos colocar em nossa mente um grande número de reflexos das coisas e das ideias divinas, o que torna mais sólida nossa capacidade intelectiva e mais eficaz nossa ação sobre o mundo. Para atingir esses objetivo é que Giordano Bruno foi grande estudioso e professor de mnemônica, que é o estudo de técnicas para facilitar a memorização.

Bruno sustenta ainda que o universo é infinito, e como infinito não tem um centro nem uma circunferência.

Em seus estudos sobre ética Bruno culpa o cristianismo de inverter os valores morais de sua época. O cristianismo tornou a crença sem reflexão em uma sabedoria, a hipocrisia humana em conselho divino, a corrupção da lei natural em piedade religiosa, o estudo em loucura, a honra em riqueza, a dignidade em elegância, a prudência na malícia, a traição na sabedoria e a justiça na tirania.

Para combater essa situação Giordano cria uma escala de valores onde em primeiro lugar está a verdade, em segundo a prudência e em terceiro a sabedoria. Em quarto lugar está a lei, que regula o comportamento das pessoas e na sequência, a força de espírito que é a virtude interior.

Deus, para o filósofo Bruno, não pode ser conhecido pelas suas consequências nem por suas obras, da mesma forma que não podemos conhecer o escultor pela estátua. Não podemos conhecer Deus porque Ele está muito além da nossa capacidade intelectiva. O caminho mais digno para nos aproximarmos de Deus é através da sua revelação.

Mas Deus como objeto de estudos da filosofia, é a própria natureza. E como natureza Deus é o motivo e a origem do universo. É motivo porque Ele é que define as coisas que formam o universo. E é origem porque é Ele quem dá a existência para as coisas do universo. Deus é o intelecto universal que anima, serve de base e governa o mundo.



Sentenças:

- Deus é tudo em tudo, mas não em cada parte.

- O tempo tudo tira e tudo dá; tudo transforma e nada destrói.

- Não existe satisfação sem tristeza.

- A poesia não nasce das regras.

- Somos a causa de nós mesmos.

- O universo é uno, infinito e imóvel.

- Os homens mais devotos e santos, um dia foram chamados de asnos.

- Não é a matéria que causa o pensamento, mas o pensamento que causa a matéria.

- O homem não tem limites, e um dia se dará conta disso e será livre, ainda neste mundo.

- O amor torna o velho louco e o jovem sábio.

- A ignorância é a mãe da felicidade.


Giordano Bruno


Responsável: Arildo Luiz Marconatto

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Platão (430 - 347) História da Filosofia

Platão em sua filosofia determinou algumas das ideias centrais do pensamento ocidental como as ideias políticas que aparecem nos escritos Diálogos e na República, nas teorias psicológicas que expõe em Fedro, na cosmologia de Timeu e na filosofia das ciências abordas na obra Teeteto.
Platão fundou a Academia de Atenas, escola onde estudou Aristóteles. Escreveu sobre diversos temas como epistemologia, metafísica, ética e política. Em seus diálogos um dos personagens freqüente é Sócrates de quem Platão foi discípulo. Em muitos momentos é difícil dividir o pensamento dos dois filósofos.
Em seus diálogos Platão utiliza diversos personagens históricos como Górgias, Parmênides e Sócrates para através de suas falas expor suas teorias filosóficas. Uma de suas teorias mais conhecidas é a das Ideias em que afirma que o mundo que conhecemos através dos cinco sentidos, o mundo sensível, é um mundo imperfeito e falho, mera sombra do real mundo das ideias. O Mundo das Ideias é muito superior ao mundo sensível. O mundo que sentimos é somente uma cópia apagada do mundo das ideias pois as ideias são únicas e imutáveis e as coisas do mundo sensível estão constantemente mudando. Esse pensamento aparece no livro República e é conhecida como Mito da Caverna. Para Platão a única forma para conhecermos a realidade inteligível é através da razão pois os nosso sentidos podem nos enganar.
Ele divide o mundo em três partes, na primeira estão os objetos perceptíveis pelos sentidos. Na segunda estão as coisas que não podem ser percebidas pelos sentidos mas podem ser entendidos pelo espírito humano como a matemática e a geometria. Na terceira parte de sua divisão Platão coloca as ideias superiores como a virtude e a justiça que somente podem ser conhecidas pela inteligência através da utilização de outras ideias.
Platão escreveu ainda sobre diversos assuntos como a melhor forma de governo e sobre o Estado, para ele a sociedade deveria ser dividida em três partes que correspondem e se relacionam com a alma dos indivíduos. A primeira parte é a vontade ou o apetite e corresponde aos trabalhadores braçais. A segunda parte é a do espírito e é relacionada aos guerreiros e aventureiros que tem que ser destemidos, fortes e espirituosos. A terceira parte é reservada aos filósofos e aos governantes, é a parte da razão e é reservada aos inteligentes e racionais, qualidades essas mais apropriadas para indivíduos que vão tomar decisões representando toda sociedade. É portanto a razão e a sabedoria que devem governar, os filósofos devem governar como reis ou os reis devem ser filósofos para governar com racionalidade.
Em seu escrito A República Platão descreve a maneira que se pode passar de um regime político a outro e classifica os regimes de governo em cinco formas: 1- O governo dos filósofos ou aristocracia que ele define como o governo dos mais capazes. Esse é para ele o regime perfeito pois corresponde ao ideal do filósofo-rei que reúne poder e sabedoria em uma só pessoa. Esse regime é seguido por quatro regimes imperfeitos: 2- A timocracia, regime fundamentado sobre a honra; 3- Oligarquia, fundamentado sobre a riqueza; 4- Democracia que se fundamenta sobre a ideia de igualdade e 5- Tirania que se funda no desejo do tirano e representa o fim da política porque nele são abolidas as leis.
Sobre Epistemologia Platão elabora a teoria da reminiscência segundo a qual aprender é recordar-se. Para ele as ideias são imutáveis, eternas, incorruptíveis e não criadas, estas ideias estão hospedadas no hiperurânio que está localizado num mundo supra-sensível. Esse mundo é parcialmente visível para as almas que estão desligadas do próprio corpo. Quando nossa alma estava desligada do nosso corpo ela viu e conheceu as ideias do hiperurânio e quando entraram novamente em um corpo, reencarnando-se, nossa alma esqueceu a visão que teve das ideias. O trabalho do filósofo é fazer com que as pessoas recordem dessas ideias através do diálogo. Mas é impossível aos seres humanos conhecer completamente o mundo das ideias que é acessível somente aos deuses, o melhor conhecimento a que os humanos conseguem atingir é o conhecimento filosófico, o amor pelo saber e a incansável busca da verdade. Para Platão o homem tem necessidade de conhecimento e ele não teria necessidade de conhecimento se não tivesse visto nunca esse conhecimento. O homem busca o conhecimento porque ele não o tem mais, porque ele o perdeu.
O mito é uma forma de conhecimento inferior à filosofia porque é baseado sobre a intuição que não tem como ser demonstrada. E a ciência é um saber inferior porque necessita ser demonstrada e porque é baseada sobre hipóteses, mas na falta de conhecimentos melhores mesmo o mito e a ciência são conhecimentos que podem ser utilizados pelos filósofos para alcançar as ideias. O único conhecimento que o filósofo não pode aceitar é a opinião.
Na questão ética Platão liga beleza e bondade, tudo aquilo que é belo é também verdadeiro e bom e vice-versa. É a beleza das ideias que atraem a inteligência do filósofo e o bem, também por ser belo, atrai a sabedoria.
O amor para Platão é uma forma de delírio divino que se manifesta no afeto à uma pessoa a um objeto ou até mesmo à uma ideia. Esse afeto é acompanhado da ideia de que a satisfação desse desejo pode ser uma forma de elevar a existência. Ele distingue o amor através das suas diferentes finalidades condenando o amor carnal e exaltando o amor pela sabedoria que é expresso pela filosofia que contempla o verdadeiro belo. O amor é o desejo de beleza e ela é desejada porque ela é o bem que torna as pessoas felizes. A primeira beleza que aparece é a beleza do corpo, em seguida vem a beleza de todos os corpos, acima dela está a beleza da alma que é inferior à beleza das leis e das organizações humanas, acima dela está a beleza das ciências e acima de tudo está a ideia de beleza, é a beleza em si que é eterna e fundamenta todas as outras belezas. O amor é ainda insuficiência pois ele deseja qualquer coisa que não tem e ele deseja essa coisa porque ele precisa dessa coisa e se ele precisa de algo é porque ele é imperfeito.
Outro ponto importante da filosofia de Platão é a questão da justiça pois para ele nenhuma sociedade pode manter-se sem justiça. A justiça é o que fundamenta o estado e ela acontece quando os cidadãos pertencentes a um estado cumprem a tarefa que pertence a cada um deles. A justiça é o que une o estado, ela é a união do indivíduo com o estado. Para que o estado seja justo devem ser cumpridas duas condições, a primeira é a eliminação da riqueza e da pobreza e a segunda é o fim da vida familiar dando às mulheres igualdade de participação no estado. Os filhos seriam criados pelo estado que assim seria uma única e grande família.
Platão acreditava que o papel do filósofo é amar conhecer todas as coisas e não somente algumas coisas e somente é possível conhecer as coisas que são pois o que não é, não é também cognoscivel. O ser é a ciência que é o verdadeiro conhecimento e o não ser é a ignorância. A opinião é o meio termo entre o conhecimento e a ignorância. A arte imitativa, como a pintura e a poesia, são condenáveis por serem somente ilusões. A pintura representa uma imitação de uma pequena parte da aparência dos objetos e a poesia vai representar somente uma parte da alma que são as emoções. Ambas são imitações incompletas e de pouco valor.

Sentenças :
- Buscando o bem de nossos semelhantes encontramos o nosso.
- Cada lágrima nos ensina uma verdade.
- Quando a multidão exerce a autoridade, ela é mais cruel do que os tiranos.
- Existe somente um tipo de virtude, de maldades existem muitos tipos.
- Onde reina o amor, sobram as leis.
- O corpo é a prisão da alma.
- O homem sábio vai querer estar sempre com quem seja melhor que ele.
- Aquele que aprende e não pratica o que sabe é como o que ara e não semeia.
- Frio e enfadonho é o consolo que não vem acompanhado de algum remédio.
- A conquista própria é a maior das vitórias.
- Filosofia é a ciência dos homens livres.
- Liberdade é ser dono da própria vida.
- A música é para a alma o que a ginástica é para o corpo.
- A pobreza não vem da diminuição das riquezas, mas da multiplicação dos desejos.
- Os amigos se convertem com freqüência em ladrões do nosso tempo.
- Um dos castigos por recusarmos a participar da política é que seremos governados por homens inferiores a nós.
- Não conheço um caminho infalível para chegar ao sucesso, mas existe um caminho seguro para o fracasso: querer contentar a todos.
- Somente os mortos viram o fim da guerra.
- Uma vida sem pesquisa não é digna de ser vivida pelo homem.

Fonte: Arildo Luiz Marconatto - www.sofilosofia.com.br

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A imortalidade da Ética 2

 
Prezados alunos,

Mais um semestre chega ao seu fim. Foi, sem sombra de dúvidas, um semestre incomum. É provável que esse email não seja lido por todos os alunos, muito embora eu já me sinta reconfortada se alguns poucos puderem ler essa minha mensagem e, quiçá, multiplicá-la.

Pode parecer uma mensagem de boas férias. Não deixa de ser. Entretanto, me sinto na obrigação moral, como docente da disciplina de Ética que sou, de alinhavar nesse pequeno texto, alguns episódios desagradáveis ocorridos nesse semestre letivo.

Nunca comparado há semestres anteriores, tivemos tantos casos de alunos descontentes, não com seu desempenho, mas com a nota que lhe fora atribuída, como se o professor atribuísse a nota de outra forma que não fosse através da análise do desempenho do aluno. Nunca tivemos tantos casos de alunos perguntando a matéria da prova horas antes da sua realização. Casos de discentes “pedindo” pontos a mais, barganhando sua aprovação como se negociasse um carro, um quilo de carne, um sapato. Casos de alunos, salvo algumas poucas exceções, pedindo de maneira desavergonhada, o abono de suas ausências em aula. O desrespeito aos docentes, dentro do espaço mais sagrado que é a sala de aula, no entrar e sair da mesma, durante o momento mais precioso da explicação, portanto refrigerantes, salgadinhos; como se isso fosse normal.

Como se somente isso já fosse anômalo, nunca tivemos, nesse semestre, se comparado há semestres anteriores, tantos casos de plágios em trabalhos acadêmicos, alunos riscando, rasgando, pisando em provas e, infelizmente me ponho a relatar, casos de falsidade ideológica. Não entrarei no mérito da questão, apesar de que se faz necessário salientar que plagiar e identificar-se com o nome de outrem se tratam de crimes previstos no Código Penal (Lei 9610 de 19 de fevereiro de 1988 – Lei dos Direitos Autorais) e a Lei de Falsidade Ideológica (Falsa Identidade. Consiste em se fazer passar por outra pessoa, com o objetivo de obter alguma vantagem ou prejudicar outrem. Pena: detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.) Jornal do Direito. Fev/mar 2006. Advogado Thiago Lauria.
Notamos que a PO3, isto é, a terceira oportunidade que o aluno tem de poder recuperar a sua nota e não ficar com o fardo de uma DP, passou a ser encarada como mais uma oportunidade de colar, de falsificar, de camuflar, de fraudar. Salvo casos de alunos que vemos que estão levando seu curso com seriedade e que pretendem ser um profissional capacitado e ético no futuro, o restante não passa de um verdadeiro embuste. Colas artesanais, em transparências, micro filmadas, camufladas, psicografadas, etc, etc, etc.
Vamos estudar meus alunos!!! Vamos ler os textos e as apostilas fornecidos!!! Vamos visitar mais a biblioteca!!! Façam sua parte no processo, pois é a sua formação que está em jogo. Vocês serão os futuros profissionais que estarão no mercado de trabalho futuramente. Se considerarmos que embasados nesses critérios e praticando tais condutas, vocês considerar-se-ão futuros profissionais, o que farão vocês diante de possíveis dúvidas que surgirão:
"Quanto de cimento devo colocar nessa coluna? Sei lá. Como faz mesmo esse cálculo? Não sei. Essa viga mestra tem que ter quanto de altura? Humm... Essa resistência comportará a corrente elétrica que passará por aqui? Acho que sim. Esse material vai resistir? Acho que vai. O fornecedor está me apresentando uma nota superfaturada e me incluindo no processo, o que eu faço? Vou tirar proveito ou não? De quanto é a comissão? Vou assinar esse projeto por outro profissional, mas acho que isso não tem problema!"
Entristece-me profundamente que o curso universitário, a base de uma carreira profissional de sucesso, seja lá qual for a área escolhida, está sendo considerado com tanta desconsideração. Está sendo feito aos trancos e barrancos.
Dificuldades, todos temos! Faltou-nos a base, necessária em anos anteriores de ensino médio? Sim! Mas essa deficiência não justifica, em momento algum, a conduta do embuste e da falcatrua.
Vamos estudar meus alunos!!! Vamos amanhecer sob nossos livros!!! Vamos pernoitar em cima de planilhas de cálculos!!! Vamos debruçar em apostilas e gráficos!!! Vamos nos empenhar!!!
Muito café para vocês!
Boas férias a todos e reflitamos sobre a nossa ética!
Profª Marilia Coltri