"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém" Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios

"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém [...]". (Carta do Apóstolo Paulo aos cristãos. Coríntios 6:12) Tudo posso, tudo quero, mas eu devo? Quero, mas não posso. Até posso, se burlar a regra; mas eu devo? Segundo o filósofo Mário Sérgio Cortella, ética é o conjunto de valores e princípios que [todos] usamos para definir as três grandes questões da vida, que são: QUERO, DEVO, POSSO. Tem coisas que eu quero, mas não posso. Tem coisas que eu posso, mas não devo. Tem coisas que eu devo, mas não quero. Cortella complementa "Quando temos paz de espírito? Temos paz de espírito quando aquilo que queremos é o que podemos e é o que devemos." (Cortella, 2009). Imagem Toscana, Itália.































segunda-feira, 27 de agosto de 2012

CORONELISMO, ENXADA E VOTO – Victor Nunes Leal



60 ANOS DE
"CORONELISMO, ENXADA E VOTO": A CONTRIBUIÇÃO DA OBRA E DO AUTOR.


João Henrique Catraio Monteiro Aguiar



 
Qualquer pessoa que queira entender a formação dos municípios brasileiros e o discutido conceito acadêmico "coronelismo" terá necessariamente de passar pela leitura de Coronelismo, Enxada e Voto: o município e o sistema representativo no Brasil (1949). A obra foi escrita por Victor Nunes Leal (1914-1985), sendo a publicação de sua tese apresentada em 1948 para concorrer à cátedra de Política (1943-1969) na Universidade do Brasil (que se tornaria posteriormente UFRJ). Pela mesma Universidade tornou-se bacharel em Direito - na Faculdade Nacional de Direito – e Doutor em Ciências Sociais – na Faculdade Nacional de Filosofia (1948) –, assumindo, em 1959, a presidência do Instituto de Ciências Sociais. Exercerá atividades didáticas também na ESG, ECEME, DASP, Universidade de Brasília e CEUB. Nascido em Carangolas (MG), tornar-se-á membro da Academia Mineira de Letras em 1976. Antes que seja aprofundada a temática do livro, cabe mencionar a destacada atividade do autor no campo jurídico e político.
Exerceu a advocacia de 1937 a 1956 e de 1969 a 1985. Trabalhou com o ministério de Capanema, como Oficial de Gabinete (1939-40) e Diretor do Serviço de Documentação do Ministério de Educação e Saúde (1940-43). Foi Chefe da Casa Civil da Presidência da República (1956-59). Esteve no cargo de Procurador Geral da Justiça do Distrito Federal (1956), Procurador do Tribunal de Contas do Distrito Federal (1960), Consultor Geral da República (1960), Ministro do Supremo Tribunal Federal (1960-1969), Ministro de Supremo Tribunal Eleitoral (1966-1969). Atuou de forma incisiva na esfera pública, tendo não só seus diferentes livros e ensaios publicados; como também participação em inúmeros congressos e jornais. Destaca-se também por sua presença em missões no exterior. Representou o Brasil na IV reunião do conselho de juristas do Conselho dos Estados Americanos (Chile, 1959). Participou na Itália de Congresso de Direito Administrativo (1960). Fez parte das missões de observadores das eleições na República Dominicana (1962) e Nicarágua (1963). Foi convidado pela Grã-Bretanha (1966) e pelos EUA (1968) como membro de missão de magistrados. Sofreu o impacto do AI-5, de 1968, e em janeiro do ano seguinte foi afastado de muitas das funções que ocupava. O resto de sua vida será dedicado à advocacia. Leal forjou-se como intelectual e como cidadão atuante em sua sociedade, sendo reconhecido por seus pares.

O livro do eminente jurista tem como foco a relação política de compromissos e trocas assimétricas que se estabelece em um regime político de extensas bases representativas, unidas a um poder privado exorbitante. O autor concebe o conceito do "coronelismo" como "(...) resultado da superposição de formas do regime representativo a uma estrutura econômica e social inadequada. (...) É (...) forma peculiar de manifestação do poder privado.". (Leal; 1976:20)". O privatismo se conjugaria aqui com o mandonismo, o filhotismo, o paternalismo. O excessivo poder dos chefes locais resultaria na perseguição a opositores, na proteção desmesurada (com nomeações públicas) dos próximos e indiferença à lei quando preciso para promover alguma benesse, geralmente às custas de um prévio acordo. O governo estadual daria "carta-branca" ao poder local dos "coronéis" (conferia "autonomia extralegal"), que promoveriam melhorias nos serviços e utilidades públicas, trazendo também eleitores – estes dependentes do "coronel" devido à estrutura agrária – que legitimassem a eleição dos candidatos estaduais. A forma de voto forçada a que os dependentes do senhor se submetem chama-se voto de cabresto. Esse sistema é chamado de coronelista e será base de entendimento para interpretações posteriores. Existe devido à ascensão do poder público, notadamente o estadual, simultaneamente ao declínio do poder privado, notadamente o dos latifundiários. A falta de autonomia no plano municipal faz com que os chefes políticos locais negociem com a instancia pública.

Esse entendimento é peculiar de Leal, que irá contra o senso comum acadêmico de sua época que apontava para a lógica oposta, alegando que o coronelismo era uma tendência típica do fortalecimento do poder privado frente ao enfraquecimento do poder público. O pensador prova que, ao longo dos anos, desde a Colônia até a Constituição de 1946, o poder municipal foi paulatinamente se fortalecendo. E ao mesmo tempo várias e consolidaram condições de extinção do poder dos chefes locais, tais como a mudança na estrutura familiar, a abolição da escravatura, a decadência do modelo agrário-exportador. O autor sustenta que não havia mais concentração de riqueza ou poder suficiente para os senhores rurais, o que fazia com que eles buscassem amparo dos poderes estaduais. Dá-se então a conservação residual do poder privado frente à crescente ingerência do poder público através do sistema. Não há, portanto, dialética ou dualismo entre público e privado; há nesse caso um entrelaçamento entre ambas as esferas que se nutrem uma da outra. O Estado proveria os cargos públicos, o controle da polícia e o erário ao poder local; o coronel proveria votos para os líderes estaduais e melhorias públicas para o município e seus dependentes. A descentralização e o aumento do poder tributário, legislativo e executivo do âmbito municipal seriam o meio enfraquecedor do sistema coronelista, que tem seu auge na República Velha. Contudo, engana-se quem considera tal questão política como datada, pois o autor assim argumenta:

 A morte aparente dos "coronéis" no Estado Novo não se deve, pois, aos prefeitos nomeados, mas à abolição do regime representativo em nossa terra. Convocai o povo para as urnas, como sucedeu em 1945, e o "coronelismo" ressurgirá das próprias cinzas, porque a seixa que o alimenta é a estrutura agrária do país . (LEAL; 1976: 134).
O termo "coronel" surge quando em 1831 é criada a Guarda Nacional, que terá grande destaque sufocando rebeliões regionais e na Guerra do Paraguai. Para ter o título de coronel era preciso pagar uma soma, com o que muitos não podiam arcar. Com isso, sobrepunha-se muitas vezes o poder econômico do latifundiário ao poder sócio-político, através de um monopólio legítimo da força municipal obtido de forma censitária. O sistema coronelista se erige em um tripé: os acordos entre "coronéis" e lideranças políticas estaduais (coronelismo), a concentração fundiária (enxada) e um déficit de autonomia municipal que permitiria o surgimento do voto de cabresto (voto).

Para desenvolver seu ensaio acadêmico, Victor Nunes Leal divide seu livro em sete capítulos. O primeiro define o coronelismo; o segundo, as atribuições do município; o terceiro, a eletividade. O quarto analisa as receitas municipais; o quinto enfoca a organização policial e judiciária; o sexto disserta sobre a legislação eleitoral e o sétimo exibe prospecções e retoma a discussão teórica do primeiro. É um livro bem-estruturado, pois abarca um longo período histórico de forma concisa, tratando desde o Brasil colônia até a redemocratização de 1946. Pode ser considerado um clássico interdisciplinar porque congrega discussões de administração pública, direito, ciência política, história e sociologia. A pesquisa realizada é intensa e extensa: abusa de fontes primárias e usa com sabedoria as fontes secundárias. Utiliza-se de estatísticas, documentos oficiais, discursos de personagens históricos, pesquisa bibliográfica de aporte teórico e factual. Auxilia sua produção uma visão realista e sociológica do normativo, incomum a muitos juristas, que ficam sufocados num etéreo divagar sobre as leis. Vale lembrar que o final do livro é um libelo à humildade e à sobriedade da análise, que conclama à resolução do problema. Leal finaliza seu trabalho, afirmando:
Com esta singela contribuição ao estudo do "coronelismo", não tivemos o propósito de apresentar soluções; apenas nos esforçamos para compreender uma pequena parte dos nossos males. Outros, mais capacitados, que empreendam a tarefa de indicar o remédio.
(LEAL; 1976: 258 )
Autor:   João Henrique Catraio Monteiro Aguiar. Bacharel (2008) e licenciado (2008) em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. VoxJuris | Ano 2, v. 2, n. 1, pág. 415-418, 2009

Bibliografia: LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada e Voto. 3ed. São Paulo: Alfa Ômega, 1976.



"Grandes Navegações e a Expansão Marítima Europeia"


 Mares nunca d'antes navegados...

Os Lusíadas - Luís de Camões
Canto I

"As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;[...]"





Durante os séculos XV e XVI, os europeus, principalmente portugueses e espanhóis, lançaram-se nos oceanos Pacífico, Índico e Atlântico com dois objetivos principais : descobrir uma nova rota marítima para as Índias e encontrar novas terras. Este período ficou conhecido como a Era das Grandes Navegações e Descobrimentos Marítimos.


Os objetivos

No século XV, os países europeus que quisessem comprar especiárias (pimenta, açafrão, gengibre, canela e outros temperos), tinham que recorrer aos comerciantes de Veneza ou Gênova, que possuíam o monopólio destes produtos. Com acesso aos mercados orientais - ìndia era o principal - os burgueses italianos cobravam preços exorbitantes pelas especiarias do oriente. O canal de comunicação e transporte de mercadorias vindas do oriente era o Mar Mediterrâneo, dominado pelos italianos. Encontrar um novo caminho para as Índias era uma tarefa difícil, porém muito desejada. Portugal e Espanha desejavam muito ter acesso direto às fontes orientais, para poderem também lucrar com este interessante comércio.

Um outro fator importante, que estimulou as navegações nesta época, era a necessidade dos europeus de conquistarem novas terras. Eles queriam isso para poder obter matérias-primas, metais preciosos e produtos não encontrados na Europa. Até mesmo a Igreja Católica estava interessada neste empreendimento, pois, significaria novos fiéis.

Os reis também estavam interessados, tanto que financiaram grande parte dos empreendimentos marítimos, pois com o aumento do comércio, poderiam também aumentar a arrecadação de impostos para os seus reinos. Mais dinheiro significaria mais poder para os reis absolutistas da época (saiba mais em Absolutismo e mercantilismo).





Pioneirismo Português

            Portugal foi o pioneiro nas navegações dos séculos XV e XVI devido a uma série de condições encontradas neste país ibérico. A grande experiência em navegações, principalmente da pesca de bacalhau, ajudou muito Portugal. As caravelas, principal meio de transporte marítimo e comercial do período, eram desenvolvidas com qualidade superior à de outras nações. Portugal contou com uma quantidade significativa de investimentos de capital vindos da burguesia e também da nobreza, interessadas nos lucros que este negócio poderia gerar. Neste país também houve a preocupação com os estudos náuticos, pois os portugueses chegaram a criar até mesmo uma centro de estudos : A Escola de Sagres.
  • Fator fundamental, formação precoce de uma monarquia centralizada graças à guerra de Reconquista, contra os muçulmanos.
  • Localização geográfica favorável, no extremo sul da Europa, com fácil acesso para o Atlântico e para o continente africano.
  • Formação de uma classe mercantil mais dinâmica que a velha nobreza feudal, facilitando a modernização da monarquia, com a Dinastia de Avis, após a revolução de 1385.
  • Além disso, a Europa, na época, atravessava um período de inovações técnicas. Através da influência árabe, foram divulgados e aperfeiçoados diversos conhecimentos; algarismos arábicos,bússola, pólvora, papel.


Escola de Sagres





      


Planejamento das Navegações



Navegar nos séculos XV e XVI era uma tarefa muito arriscada, principalmente quando se tratava de mares desconhecidos. Era muito comum o medo gerado pela falta de conhecimento e pela imaginação da época. Muitos acreditavam que o mar pudesse ser habitado por monstros, enquanto outros tinham uma visão da terra como algo plano e , portanto, ao navegar para o "fim" a caravela poderia cair num grande abismo.

Dentro deste contexto, planejar a viagem era de extrema importância. Os europeus contavam com alguns instrumentos de navegação como, por exemplo: a bússola, o astrolábio e a balestilha. Estes dois últimos utilizavam a localização dos astros como pontos de referência.

Também era necessário utilizar um meio de transporte rápido e resistente. As caravelas cumpriam tais objetivos, embora ocorressem naufrágios e acidentes. As caravelas eram capazes de transportar grandes quantidades de mercadorias e homens. Numa navegação participavam marinheiros, soldados, padres, ajudantes, médicos e até mesmo um escrivão para anotar tudo o que acontecia durantes as viagens.

Especiarias

As especiarias são temperos (condimentos) usados na culinária para proporcionar sabores diferentes nas comidas. Algumas especiarias também eram, e ainda são, utilizadas na fabricação de cosméticos, óleos e medicamentos. As principais são: pimenta, gengibre, cravo, canela, noz moscada, açafrão, cardamomo e ervas aromáticas.
Na época das Grandes Navegações e Descobrimentos Marítimos (séculos XV e XVI) eram muito valorizadas na Europa, pois não podiam ser cultivadas neste continente em função do clima. O surgimento e crescimento da burguesia também aumentou a demanda por produtos considerados de luxo na época, como, por exemplo,  as especiarias.
No século XV, os comerciantes de Gênova e Veneza, cidades italianas, tinham o monopólio destas especiarias. Compravam no Oriente, principalmente na Índia e China, e vendiam com alta porcentagem de lucro no mercado europeu. Estas especiarias eram levadas para Europa através da rota do Mar Mediterrâneo, dominada pelos comerciantes italianos.
No século XVI, os portugueses descobriram uma rota alternativa para chegar ao oriente, através da navegação pela costa africana. Passaram a comprar as especiarias diretamente na fonte e tiraram o monopólio dos italianos. As caravelas portuguesas chegavam à Europa carregadas de especiarias, que eram vendidas com alta taxa de lucro. Portugal se tornou uma potência econômica da época.

O Mar Tenebroso


Os marinheiros daquele tempo "acreditavam que, em suas águas, viviam monstros que afundavam navios   e   devoravam   tripulantes, sereias encantadas que enfeitiçavam os navegadores, buracos negros no mar, abismos imensos, seres infinitamente diferentes que viviam em terras distantes.”
 
Instrumentos de navegação

Bússola

Astrolábio

Portulanos


Fontes de pesquisa:
http://www.professorsergioaugusto.com/news/grandes%20navega%C3%A7%C3%B5es%20-%20expans%C3%A3o%20maritima/
http://www.suapesquisa.com/o_que_e/especiarias.htm
http://www.infopedia.pt/$escola-de-sagres
http://www.oslusiadas.com/content/view/18/41/

"A Civilização Egípcia"

"A Dádiva do Nilo" e a hierarquia social


Dádiva do Nilo



Quando falamos do Egito Antigo é comum à referência de pelo menos três elementos básicos: deserto, pirâmides e o rio Nilo. De fato, toda a civilização egípcia floresceu em torno do vale fértil do Nilo, que se prolongava por aproximadamente mil quilômetros.

Na estação chuvosa a quantidade de água que caía nas nascentes do rio Nilo levava ao seu transbordamento e a inundação das terras à suas margens, onde se depositavam materiais orgânicos que faziam a fertilização do solo, tornando-o propício para a prática agrícola. Rapidamente os egípcios perceberam que era possível dominar essas águas, canalizando-o para regiões mais afastadas das margens, construindo diques e represas, ampliando, assim as terras que poderiam ser utilizadas para plantio e melhorando as condições de habitação e sobrevivência do ser humano.

Não bastasse o desenvolvimento da agricultura e da engenharia, o Nilo teve papel importante no desenvolvimento do comércio no Antigo Egito. Os egípcios utilizavam amplamente as águas do Nilo para comercializar os excedentes agrícolas possibilitando o desenvolvimento da civilização e o acúmulo de riquezas.







Hierarquia social e trabalho

No Egito se desenvolveu um tipo de sociedade teocrática, onde existia uma amálgama de política e religião, além de uma forte hierarquia social. Nessa sociedade o governante, no caso o Faraó, era considerado um monarca de origem divina, um “soberano supremo”, encarnação própria do deus Amon-Rá, e é claro, ocupava o topo da hierarquia. Não é difícil imaginar que o faraó tinha um grande poder em suas mãos, sendo considerado “o senhor de todos os homens e de todas as terras”, ou seja, todas as riquezas e terras do Egito pertenciam ao faraó. Ao mesmo tempo era considerado o maior dos juízes, sacerdote supremo e chefe militar do Antigo Egito.


Abaixo do Faraó existiam:

· Os sacerdotes, que tinham a função de servir os deuses, principalmente por meio de oferendas.

· Os escribas, de quem se esperava o domínio da escrita e o registro de acontecimentos por meio de hieróglifos, onde os símbolos procuravam representar sons. A escrita egípcia era bastante complexa, composta por pictogramas (desenhos representando objetos concretos) e ideogramas (sinais representando ideias abstratas). Para a escrita, os escribas costumavam utilizar o papiro, que era uma espécie de papel feito com fibras de uma planta aquática.

Os hieróglifos somente foram decodificados em 1822, quando o linguista francês Jean-François Champollion conseguiu decifrar a famosa Pedra de Roseta.

· Os militares, que tinham a função de defender o Egito dos inúmeros inimigos que cobiçavam suas riquezas, ou auxiliavam na construção de canais de irrigação e túmulos.

· Os camponeses, ou "felás" que constituíam a grande maioria da população cultivavam a terra e pagavam pelo uso da terra que pertencia ao faraó. Esse pagamento geralmente era feito em determinadas quantidades de cereal. Muitos camponeses também prestavam serviços ao faraó na construção de grandes obras públicas, como os canais de irrigação, templos e túmulos.

· Os escravos. Existia escravidão no Egito antigo, geralmente obtidos por meio de guerras, contudo, mesmo alcançando um número expressivo em determinados momentos, a escravidão sempre foi insuficiente para suprir a demande de mão-de-obra necessária para as colheitas e para a realização das obras públicas.

Tendo em vista essa insuficiência de escravos, era comum o recrutamento de homens livres, que através do trabalho compulsório – e mesmo contra a sua vontade – eram obrigados a trabalhar para o Estado. Essas pessoas poderiam prestar serviço na construção de um túmulo real, onde eram alojadas à noite. Caso tentasse fugir, o trabalhador compulsório poderia sofrer severas punições, inclusive se tornando um escravo.

 





"Religião e organização política"




Como já foi dito, no Egito Antigo o faraó era considerado um monarca de origem divina. Os egípcios eram politeístas (possuíam inúmeros deuses) sendo que seus deuses poderiam ter forma humana (antropomórfica) ou um misto de homens com animais (antropozoomórfica).

Além disso, os egípcios acreditavam na ideia da alma imortal, e nesse âmbito, cada indivíduo, após a morte, empreenderia uma viagem até chegar ao outro mundo, onde seria julgado no tribunal de Osíris (o juiz supremo dos mortos), a quem cabia pesar e julgar, conduzindo o indivíduo ao reino do além, ou condenando-o a ser destruído.


É por ocasião dessa jornada que os faraós levavam consigo muitas riquezas, objetos e distrações, inclusive, em algumas situações até mesmo seus serviçais mais próximos. Da mesma forma, as pirâmides, obras magníficas empreendidas pelos egípcios, ao mesmo tempo serviam como túmulo, agrado aos deuses e mostra de seu grande poder.

Entre as pirâmides mais famosas, destacam-se as de Guizé, dos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos.



Como acreditavam na vida após a morte os egípcios desenvolveram o processo de mumificação dos mortos, onde preparavam e embalsamavam o corpo. No processo de mumificação dos faraós e de pessoas que pertenciam à elite costumava-se amolecer o cérebro e depois retirá-lo pelas narinas. Posteriormente retiravam-se os órgãos através de uma incisão do abdômen e enchiam-se as cavidades com saquinhos de sal, com a finalidade de absorver os líquidos. Depois de 70 dias o corpo estava pronto para ser perfumado e enfaixado, colocado no sarcófago e posteriormente na sua tumba.

Uma das múmias mais famosas é a de Tutankamon, faraó que viveu no século XIV a.C. e morreu jovem, aos 19 anos. A sua tumba foi descoberta em 1922 pelo egiptólogo britânico Howard Carter. Vários participantes na escavação morreram pouco depois da descoberta da tumba, todos em circunstancias estranhas. Essas mortes deram origem à lenda em torno da “maldição de Tutankamon”, onde se dizia que a múmia trazia morte aqueles que a ousassem tocar. Levantou-se até a hipótese de que a tumba do faraó continha vírus milenares que contaminaram o ar e levaram às pessoas a morte. Seja como for, a vida e morte de Tutankamon continuam envoltas em mistérios.

A civilização egípcia alcançou um grande avanço no campo das ciências. Além da engenhosidade na construção das pirâmides, e do surgimento de profissões como a do arquiteto, foram os egípcios que inventaram o calendário de 365 com a divisão dos dias em 24h. Os egípcios conheciam muito bem o corpo humano, alcançando um impressionante desenvolvimento na medicina, com a manipulação de medicamentos para tratamento de diversas doenças e instrumentos para a realização de cirurgias.


Máscara funerária de Tutankhamon





Organização política 


Os primeiros agrupamentos humanos da região do Rio Nilo surgiram por volta de 5.000 a.C. Posteriormente, muitas dessas aldeias de agruparam dando origem aos nomos. Vários e importantes nomos se desenvolveram ao longo do rio Nilo, que funcionavam de forma mais ou menos autônomas.

Por sua vez, os nomos se uniram formando dois grandes reinos: Baixo Egito (próximo do Mediterrâneo) e o Alto Egito (ao sul do rio Nilo). Por volta de 3200 a.C. Menés criou a grande capital Mênfis e conseguiu unificar as tribos do Baixo e do Alto Egito, dando início a primeira dinastia de faraós e a um império que duraria mais de 3 mil anos, compreendendo um total de 31 dinastias até o ano de 300 a.C., quando ocorreu o enfraquecimento do poder central.

Coroa Branca do Alto Egito (Sul)




Coroa Vermelha do Baixo Egito (Norte)




Coroa da Unificação do Egito (Alto e Baixo Egito)




Por sua riqueza e grandiosidade o Egito sempre despertou a cobiça de povos estrangeiros. Por séculos os inimigos foram repelidos, mas no século VI a.C. os persas conseguiram dominar o território egípcio estendendo o seu domínio até o século IV a.C. quando os macedônios expandiram o seu domínio na região. Mais tarde, por volta do século I a.C. seria a vez dos romanos empreenderem a conquista do Egito, transformando-o em uma província romana.


Anubis



Hathor



Hórus



Faraó pequeno




O Escaravelho de Hórus




Ísis




Olho de Hórus





Rá



Seth



Textos e imagens:  http://imagohistoria.blogspot.com.br/2011/03/antiguidade-oriental-4-de-8-o-egito.html. Sérgio Henrique. Acesso em 27/08/12.
Imagens: http://www.coljxxiii.com.br/webquest/caio/caio.htm. Caio Christofolletti. Acesso em 27/08/12.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Civilização Persa


Zoroastro ou Zaratrusta
Por Rainer Sousa

Localizados entre o golfo Pérsico e o mar Cáspio, os persas estabeleceram uma das mais expressivas civilizações da Antiguidade no território que hoje corresponde ao Irã. Por volta de 550 a.C., um príncipe chamado Ciro realizou a dominação do Reino da Média e, assim, iniciou a formação de um próspero reinado que durou cerca de vinte e cinco anos. Nesse tempo, este habilidoso imperador também conquistou o reino da Lídia, a Fenícia, a Síria, a Palestina, as regiões gregas da Ásia Menor e a Babilônia.

O processo de expansão inaugurado por Ciro foi restabelecido pela ação do imperador Dario, que dominou as planícies do rio Indo e a Trácia. Nesse momento, dada as grandes proporções assumidas pelo território persa, este mesmo imperador viabilizou a ordenação de uma geniosa reforma administrativa. Pelas mãos de Dario, os domínios persas foram divididos em satrápias, subdivisões do território a serem controladas por um sátrapa.


Império Persa

O sátrapa tinha a importante tarefa de organizar a arrecadação de impostos e contava com o auxílio de um secretário-geral e um comandante militar. Para resolver os constantes problemas oriundos da cobrança de impostos, Dario estipulou a criação de uma moeda única (dárico) e a construção de um eficiente conjunto de estradas. Por meio destas, um grupo de funcionários, conhecidos como “olhos e ouvidos do rei”, fiscalizavam o volume de arrecadação de cada satrápia.


Essas ações garantiram o desenvolvimento de uma bem articulada economia baseada no comércio entre as várias cidades englobadas pelo império persa. Ao mesmo tempo, precisamos destacar que os padrões e regulamentos estabelecidos pelo próprio Estado foram responsáveis pela manutenção de um eficiente corpo administrativo e a realização de várias obras públicas. Somente após a derrota nas Guerras Médicas é que passamos a vislumbrar a desarticulação deste vasto império.

Guerras Médicas

A vida religiosa da civilização persa atrai a curiosidade de muitas pessoas que se interessam pelos povos da Antiguidade Oriental. Seguidores dos ensinamentos do profeta Zoroastro, os persas possuem uma estrutura de pensamento religioso bastante próxima a de outras crenças, como o judaísmo e o cristianismo. Em suma, acreditam na oposição entre duas divindades (Mazda, o deus do Bem, e Arimã, o deus do Mal) e no fim dos tempos.


As manifestações artísticas persas foram visivelmente influenciadas pela esfera política. Em várias obras, monumentos e outras construções, há reproduções que homenageiam a vida e os importantes feitos dos reis. No campo arquitetônico, os palácios persas eram dotados por uma complexa gama de elementos de decoração e jardinagem. Segundo algumas pesquisas, os persas construíram alguns de seus palácios através da escavação de grandes rochas.

Acesso em 20/08/12.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

O ENIGMA DE KASPAR HAUSER (1812?-1833): UMA ABORDAGEM PSICOSSOCIAL

Maria Clara Lopes Saboya1
Fundação Instituto Tecnológico de Osasco
A partir de uma abordagem histórico-cultural em Psicologia, este trabalho analisa o percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser, um personagem real e enigmático que, quando encontrado em Nuremberg, em 1928, com supostamente 15 anos, não sabia falar, nem andar e não se comportava como humano. Até hoje o seu enigma persiste: apesar de muitas hipóteses e suspeitas, não se descobriu sua origem. Apoiando-se em estudos de Vygotsky e Luria, que indicam que a percepção depende, sobretudo, da práxis social, necessária para gestar o referencial cultural de apreensão da realidade, a autora analisa como se articulam linguagem e pensamento no desenvolvimento cognitivo de Kaspar Hauser e como ele concebe o mundo que o cerca, tendo sido privado dos filtros e estereótipos culturais que condicionam a percepção e o conhecimento.


Descritores: Hauser, Kaspar. Cultura. Educação. Estigma. Linguagem. Socialização.
Vocês não ouvem os assustadores gritos ao nosso redor que habitualmente chamamos de silêncio?
(Prólogo do Filme O Enigma de Kaspar Hauser de Herzog, 1974)
1. Introdução
Trabalhando com a perspectiva histórico-cultural em Psicologia, que enfatiza que cada ser humano se constitui como uma pessoa totalmente única (por suas experiências e sua história de vida) e que ressalta a importância das práticas culturais na definição do desenvolvimento psicológico do sujeito, buscou-se selecionar um personagem humano (Kaspar Hauser) que não correspondia, na época em que viveu (séc. XIX), aos padrões de comportamento tidos ou esperados como "normais" dentro da cultura da época.
Pretende-se analisar neste trabalho o percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser, buscando a compreensão de fatores que concorreram para a construção de seu psiquismo.
Para efetuar esta análise, pretende-se utilizar as referências sobre a vida do rapaz encontradas em diversas fontes, inclusive jornais e, principalmente, no filme O Enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog (1974) e nos livros Kaspar Hauser ou a Fabricação da Realidade, de Izidoro Blikstein (1983) e The Lost Prince: The Unsolved Mistery of Kaspar Hause, de Jeffrey Moussaieff Masson (1997).
2. A história de Kaspar Hauser
O menino Kaspar Hauser apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg, em maio de 1828. Era um estranho: ninguém sabia quem era ou de onde vinha. Trazia uma carta de apresentação anônima para o capitão da cavalaria local, contando que fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um cavaleiro como fora seu pai.
Ficou-se sabendo mais tarde (quando K. Hauser aprendeu a falar) que uma pessoa, que ele não conheceu, tratava dele enquanto esteve isolado, deixando-lhe alimentos enquanto ele dormia.
Acolhido na casa de um professor que se ocupou de iniciar sua socialização, é assassinado em 1833 (o filme de Werner Herzog sugere que K. Hauser foi assassinado pelo próprio pai).
Quando apareceu em Nuremberg, o garoto não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: "quero ser cavaleiro" e não sabia andar direito. Parecia um menino dentro de um corpo adolescente. Seu comportamento estranho para os padrões sócio-culturais estabelecidos, causava um misto de espanto e interesse. Era visto como um "garoto selvagem," apesar de demonstrar ser dócil, simples e gentil. Possuía algumas habilidades peculiares interessantes, descritas tanto no filme de Herzog, quanto na obra de Masson: conseguia enxergar muito longe, no escuro, e sabia tratar os animais, principalmente os pássaros. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas e fugia delas aterrorizado. Numa das cenas, atraído pela chama de uma vela, colocava seu dedo no fogo e, ao sentir dor, aprende que a chama queima.
Graças à sua curiosidade infantil e memória notável, aprendeu várias coisas muito depressa.
Kaspar Hauser tornou-se uma espécie de atração por sua história de vida diferente. Todas as pessoas da cidade queriam vê-lo. O filme de Herzog mostra, em uma das cenas, K. Hauser junto com outros indivíduos, tidos como anormais (um anão, um índio e uma criança autista), em exposição num circo.
Um ano depois de ter chegado a Nuremberg, foi ferido e recebeu um grande corte na fronte. Em dezembro de 1833, recebeu outro ferimento que lhe seria fatal. Herzog sugere, em seu filme, que os dois ferimentos sofridos por K. Hauser foram tentativas de assassiná-lo. Masson diz, em seu livro, que em dezembro de 1833, K. Hauser foi atraído para uma emboscada, com a promessa de receber informações sobre seu nascimento. No local, em vez disso, recebeu uma facada no peito, morrendo três dias depois.
3. O enigma de Kaspar Hauser
Muitas foram as hipóteses levantadas para explicar o fato de Kaspar Hauser ter sido criado no isolamento. Dentre essas hipóteses há duas explicações principais:
  • a primeira diz que Kaspar Hauser seria um mendigo espertalhão que fingia ser pobre de espírito para atrair a simpatia alheia. Dentro dessa visão, ele próprio teria se ferido para atrair mais atenção, ao perceber que o interesse dos outros por sua figura estava diminuindo.
  • a segunda explicação trabalha com a hipótese de que Kaspar Hauser seria neto de Napoleão Bonaparte.
O livro de Masson (1997) oferece documentação variada sobre esta segunda hipótese, argumentando que a filha adotiva de Napoleão, Stéphanie de Beauharnais, tinha-se casado com Karl, duque de Baden e, em 1812, ambos tiveram um filho a quem ela teria dado o nome de Gaspard. No entanto, Luise, a madrasta de Karl, segunda mulher de seu pai, querendo garantir para seu próprio filho a herança do trono de Baden, trocou o filho de Karl e Stéphanie por uma criança doente que morreu logo depois.
O herdeiro saudável foi posto a pão e água em um calabouço, atendido por um homem cujo rosto ele nunca via. Passava seu tempo dormindo ou brincando com um cavalinho de pau. Quando chegou perto da adolescência, o homem que cuidava dele levou-o para Nuremberg.
A fama que começou a granjear preocupou os conspiradores, a tal ponto, que recrutaram um inglês, o Conde de Stanhope, para aproximar-se do garoto, fingindo ser um amigo que queria protegê-lo. Segundo Masson, teria sido Stanhope o responsável pelas duas tentativas de assassinar Kaspar Hauser; na verdade, o crime nunca foi esclarecido.
Porém, a tese de Masson de que Kaspar Hauser seria um príncipe perdido foi refutada por um exame de DNA, cujo resultado, revelado em abril de 1997, na Alemanha, mostra que Kaspar Hauser não era herdeiro do trono de Baden, como se acreditava.2
Dois institutos forenses da Alemanha compararam restos de sangue achados na roupa de Kaspar Hauser com o sangue de duas mulheres da dinastia de Baden, ainda vivas. Ficou provado, então, que Kaspar Hauser não pertencia a essa linhagem - e o enigma foi retomado.
4. Análise do percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser
Criado no isolamento e privado de educação, condicionamento e repressão, é este processo de integração que Kaspar Hauser sofrerá em Nuremberg, e seu instrumento principal será a linguagem, pela qual a sociedade tentará fazê-lo conceber aquilo que sua natureza não concebe: a representação.
O século XIX, época em que Kaspar Hauser viveu, foi um período marcado pela perspectiva positivista, evolucionista e desenvolvimentista. A visão de que havia um modelo de civilização e de desenvolvimento a ser alcançado, tanto pelos homens, como pelas sociedades, estava em seu auge. Todos aqueles que não correspondiam ao protótipo do homem "civilizado" eram classificados como primitivos, atrasados e deveriam ser "ajudados" a alcançar graus mais avançados na escala de desenvolvimento e evolução. É dentro dessa visão de mundo que Kaspar Hauser vai ser socializado.
Ao chegar em Nuremberg Kaspar Hauser sabe apenas repetir, com dificuldade, a mesma frase ("quero ser cavaleiro como meu pai"). A sociedade o vê com estranheza. Ele próprio se vê, de repente, num mundo estranho. O filme de Werner Herzog mostra Kaspar Hauser na praça de Nuremberg com um olhar assustado. Na verdade tudo lhe é estranho: as dimensões, os movimentos, a perspectiva, o pensamento, a fala.
Com o tempo aprende a falar. Mas mesmo a linguagem não lhe permite capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. Numa das passagens do filme Kaspar Hauser olha, do campo, a torre em que fica seu quarto e observa que ela é muito menor do que ele próprio. "Como pode ser isto?" pergunta.
Kaspar Hauser se sente confuso pois não tem a mínima noção de que a distância de onde observava criara uma perspectiva que fazia com que a torre parecesse menor do que realmente era.
Quando seu tutor aproxima-se com ele da torre, vem a observação: "Como esta torre é grande! O homem que a construiu deve ser muito alto!"
A paisagem em que Kaspar Hauser foi colocado, apesar de explicada pela linguagem, pelas palavras, por signos lingüísticos, permanece, para ele, indecifrável. Muitas vezes, pedia para contar histórias que imaginava, mas não conseguia verbalizar o conteúdo pensado.
Conhecer o mundo pela linguagem, por signos lingüísticos, parece não ser suficiente para Kaspar Hauser "talvez por que a significação do mundo deve irromper antes mesmo da codificação lingüística com que o recortamos: os significados já vão sendo desenhados na própria percepção/cognição da realidade" (Blikstein, 1983, p. 17). Nesse sentido, também Vygotsky insiste que o pensamento e a linguagem se originam independentemente, fundindo-se mais tarde no tipo de linguagem interna que constitui a maior parte do pensamento maduro.
Kaspar Hauser parece não entender as explicações que lhe dão. As pessoas impõem todos os tipos de signos a ele, na certeza de que compreenderá o insólito ambiente que o cerca. Como K. Hauser poderia compreender o significado das palavras e que elas representam coisas, se não passou por um processo de aprendizado e socialização necessários para que compreendesse a representatividade dos signos? Blikstein (1983) diz que a educação não passa de uma construção semiológica que nos dá a ilusão da realidade; ou seja, a educação vai estimulando na criança um processo de abstração. É justamente esse processo que K. Hauser não vivenciou.
A forma diferente como ele percebia a realidade parecia suficiente para que fosse visto como "diferente," estranho, o "outro" pela sociedade da época. Ele próprio se via como um estranho, deslocado, frágil e impotente diante de uma realidade que não conseguia compreender, pelo menos não da forma como esperavam que ele compreendesse.
Os objetos não eram percebidos por K. Hauser da forma como a prática social definia previamente, ou seja, K. Hauser estava despido dos "filtros" e estereótipos culturais que condicionam a percepção e o conhecimento. Tais "filtros" ou estereótipos, por sua vez, são garantidos e reforçados pela linguagem. Assim, o processo de conhecimento da realidade é regulado por uma contínua interação de práticas culturais, percepção e linguagem.
A forma como Kaspar Hauser compreende o mundo e se relaciona com ele indica que a percepção depende sobretudo da prática social. Sabemos que, do nascimento à adolescência, K. Hauser esteve isolado de qualquer contexto ou prática social. O que podemos verificar no seu percurso de desenvolvimento psicológico é que a despeito da ação da linguagem (adquirida na fase adulta) ou de um eventual "potencial" inato, K. Hauser não consegue captar o mundo como o faz a sociedade que o cerca, ou seja, decodifica à sua maneira, com uma lógica diferente da estabelecida, a significação do mundo. Fica evidente, então, que o seu sistema perceptual está desaparelhado de uma prática social3 necessária para gestar o referencial cultural de interpretação da realidade.
Podemos concluir que, como Kaspar Hauser não passou por um processo de socialização, onde exercitaria a compreensão através da prática social, não consegue atribuir significado às coisas, mesmo tendo adquirido a linguagem. Assim, analisando o caso de Kaspar Hauser, somos levados a pensar que não apenas o sistema perceptual, mas as estruturas mentais e a própria linguagem são resultantes da prática social, ou seja, as práticas culturais "modelam" a percepção da realidade e o conhecimento por parte do sujeito.
Em virtude de não ter sido exposto a essa "modelagem" cultural, Kaspar Hauser era visto como um ser "incompleto," como se estivesse sempre em "déficit" em relação aos outros; teria Kaspar instrumental de reflexão internalizado para construir a compreensão da diferença? Aqui parece ser possível detectar uma inverossimilhança no filme de W. Herzog: numa das cenas, K. Hauser diz a uma das pessoas que o acolheu: "Ninguém aceita Kaspar." Segundo o filme, ele tem consciência de sua situação. Porém, na realidade, parece não ser possível esse grau de consciência em alguém que não tem instrumental de reflexão internalizado.
Kaspar Hauser se sente perturbado pelo mundo: "o mundo é todo mau," comenta com seu tutor após perceber que alguém pisou as flores que plantara no jardim.
Tanto Masson (1997), quanto Herzog (1974) e Blikstein (1983), apontam para o fato de que após algum tempo de convivência com a comunidade de Nuremberg, Kaspar Hauser passa a representar um incômodo, pois vê a realidade, que aos olhos dos outros estava tão bem ordenada, com outros olhos: os olhos "subversivos" que não aceitam os referenciais que a sociedade insiste em lhe impor, negando, de certa forma, a ordem social vigente. Ele olha as pessoas, os objetos e as situações com o espanto e a perplexidade de um olhar "puro," sem "filtros" ou estereótipos perceptuais. A sua aproximação cognitiva da realidade é direta, ou seja, percebe o mundo de uma maneira ainda não programada pela estereotipia cultural.
Vygotsky, citado por Oliveira (1997, p. 24), diz que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas uma relação mediada, sendo que os sistemas simbólicos são os elementos intermediários entre o sujeito e o mundo; porém, tendo vivido no isolamento, K. Hauser não aprendeu nem internalizou este sistema simbólico que, para ele, não fazia sentido.
Somente depois de muito tempo convivendo com a comunidade de Nuremberg é que Kaspar Hauser começa a entender a relação simbólica e a relação de representatividade entre os signos e as coisas concretas.
Em um dos diálogos no filme de Herzog, K. Hauser conta ao seu tutor que havia sonhado com uma caravana. O tutor fica animado e lhe diz: "que bom Kaspar! Você fez um grande progresso! Já sabe a diferença entre o sonho e a realidade! Até a semana passada você não fazia esta distinção, acreditava que as coisas sonhadas haviam acontecido realmente ..."
A partir desse momento, Kaspar começa a se situar em relação ao mundo e às pessoas que o cercam. Parece tomar consciência de que era diferente dos outros e que, por isso, muitas vezes, era hostilizado.
Nesse sentido, Blikstein (1983) afirma que o que concebemos como realidade é apenas uma ilusão, pois a práxis opera em nosso sistema perceptual, ensinando-nos a "ver" o mundo com os "óculos sociais" e gerando conteúdos visuais, tácteis, olfativos e gustativos que aceitamos como naturais. Como Kaspar Hauser não passou por esta práxis, ou apenas começou a vivenciá-la quando adolescente, sua forma de comportamento abala os fundamentos da ilusão referencial, pois não "enxerga" a realidade da forma como os outros esperam. Essas expectativas das pessoas em relação a K. Hauser fazem com que sua identidade, já bastante comprometida devido à ausência de um passado familiar, torne-se ainda mais deteriorada.
K. Hauser não é reconhecido como parte da sociedade e ele próprio não se reconhece como parte dela. Em uma reunião da qual fora convidado a participar, em que estavam vários membros da alta sociedade, foi apresentado à esposa do prefeito de Nuremberg, que lhe perguntou como era sua prisão e ele respondeu: "melhor do que aqui fora."4 Vai sofrendo, assim, um processo de estigmatização que o marca, não apenas como "diferente" ou "anormal," mas também como alguém que não possui identidade.
Goffman (1988) define como estigmatizado o indivíduo que poderia ter sido recebido facilmente na relação social cotidiana, se não possuísse um traço que chama a atenção e afasta aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus. Ele possui uma característica diferente do padrão esperado. É exatamente o que ocorreu com K. Hauser. Embora ele tivesse muitos atributos e uma inteligência prodigiosa que lhe permitia aprender as coisas muito rapidamente é visto, por exemplo, como insensível porque não demonstra medo diante de um soldado que lhe mostra uma espada (que para os outros representa um sinal de perigo). Assim, não correspondia às expectativas de comportamento, ou seja, aos padrões de comportamento esperados de um jovem da sua idade.
Goffman afirma que acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente reduzimos sua chance de vida. Construímos uma teoria do estigma, uma ideologia para explicar a sua "inferioridade" e dar conta do "perigo" que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em outras diferenças como as de classe social. Vemos que isso ocorre, também, no filme de Herzog, quando é aventada a hipótese de que Kaspar Hauser seja filho de algum nobre (e que por disputas palacianas teria sido afastado e escondido), e o capitão da cavalaria diz que isso seria impossível, pois "K. Hauser tem traços muito grosseiros para ser um nobre"; e, quando, ao final do filme, os legistas acreditam finalmente ter encontrado as explicações para todos os "problemas" de Kaspar: uma pequena deformidade que ele possuía no cérebro. Dessa forma, o caso foi dado, na época, como solucionado: havia uma explicação racional, objetiva (porque visível e palpável - o cérebro), de caráter fisiológico e que concentrava no próprio indivíduo a "culpabilidade" de sua situação.
5. Conclusão
O caso de Kaspar Hauser serve para ilustrar o erro básico de uma organização social fundada sobre os princípios do racionalismo positivista.
Mostra-nos que a "humanização" do homem, entendida como socialização, não é uma decorrência biológica da espécie, mas conseqüência de um longo processo de aprendizado com o grupo social.
Através desse processo, o indivíduo se integra no grupo em que nasceu, assimilando o conjunto de hábitos e costumes característicos desse grupo. Participando da vida em sociedade, aprendendo suas normas, valores e costumes, o indivíduo está se socializando, reprimindo suas características instintivas e animais e desenvolvendo as sociais e culturais, fazendo, assim, a "passagem da natureza para a cultura," aprendendo a ver com os "óculos sociais," tornando-se, como nos disse C. Dickens, "um animal de costumes."
Kaspar Hauser nunca se transformou nesse animal de costumes; no máximo, poderia ser visto como "domesticado" pela sociedade da época.
Alguém como Kaspar Hauser que enxergava, mesmo na escuridão, e que ouvia os "gritos do silêncio" (coisas inconcebíveis para o homem "civilizado"), não poderia ser visto como "normal."
Mesmo tendo aprendido a andar, falar e escrever e apesar de haver internalizado símbolos de comportamentos, Kaspar Hauser nunca seria considerado um "igual" pela comunidade de Nuremberg, pois sua história de vida estava inevitavelmente marcada pelo estigma da rejeição.
Na lápide de Kaspar Hauser, no cemitério de Ansbach, na Alemanha, há uma inscrição que diz: "Hic occultus occultu uccisus est." Quer dizer: "Aqui jaz um desconhecido assassinado por um desconhecido." Nada resume melhor o misterioso percurso da vida e morte deste homem.
Saboya, M. C. L. (2001). The Mystery of Kaspar Hauser (1812?-1833): A Psychosocial Approach. Psicologia USP, 12 (2), 105-116.
Abstract: Starting from a historical-cultural approach in Psychology, this work analyzes the development of Kaspar Hauser, a real and enigmatic character that didn't know how to speak, nor to walk and didn't behave as a human being when he was found in Nuremberg, in 1928, at supposedly age 15. Still today, his enigma remains: in spite of a lot of hypotheses and suspicions we have not yet discovered its origins. Leaning on studies of Vygotsky and Luria, which indicate that the perception depends, above all, on the social practice which is necessary to produce the cultural reference for the apprehension of reality, the author analyzes how language and thought are articulated in Kaspar Hauser's cognitive development and how he conceives the world that surrounds him, having been deprived from the filters and cultural stereotypes that stipulate the perception and knowledge.
Index terms: Hauser, Kaspar. Culture. Education. Stigma. Language. Socialization.
Referências
Blikstein, I. (1983). Kaspar Hauser ou a fabricação da realidade. São Paulo: Cultrix / EDUSP. [ Links ]
O Estado de São Paulo (1997, 09 de março). p. D-6. [ Links ]
Goffman, E. (1988). Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara. [ Links ]
Herzog, W. (1974). Jeder für sich und gott gegen alle. Alemanha: ZDF Produções (Original: Cada um por si e Deus contra todos. Traduzido como: O enigma de Kaspar Hauser) [ Links ]
Masson, J. M. (1997). The lost prince: The unsolved mystery of Kaspar Hauser. New York: Free House. [ Links ]
Oliveira, M. K. (1997). Vygotsky: Aprendizado e desenvolvimento, um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione. [ Links ]
Vygotsky, L. S., & Luria, A. R. (1996). Estudos sobre a história do comportamento: O macaco, o primitivo e a criança. Porto Alegre, RS: Artes Médicas. [ Links ]
Recebido em 20.07.2001
Aceito em 05.10.2001.
1 Mestranda na FEUSP - Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, professora na Fundação Instituto Tecnológico de Osasco. E-mail: saboya@usp.br
2 Esta notícia foi veiculada pelo jornal O Estado de S. Paulo, em 09 de março de 1997, p. D6.
3 A expressão prática social pode ser entendida, aqui, no sentido que lhe atribuiu Karl Marx, ou seja, como "praxis:" conjunto de atividades humanas que engendram não apenas as condições de produção, mas de um modo geral, as condições de existência de uma sociedade. Essa parece ser também uma idéia presente em Vygotsky e mais do que isso, um de seus pressupostos: "o homem transforma-se de biológico em sócio-histórico, num processo em que a cultura é parte essencial da constituição da natureza humana...não podemos pensar o desenvolvimento psicológico como um processo abstrato, descontextualizado...pois está baseado fortemente nos modos socialmente construídos de ordenar o real" (Oliveira, 1997, p. 24).
4 Esta é uma das cenas do filme de Herzog (1974), quando Kaspar Hauser é apresentado à alta sociedade como um fenômeno. É convidado a tocar piano e se mostra depressivo, pois após dois anos de estudo, não consegue tocar tão bem quanto um outro jovem que se apresentara anteriormente. Seu tutor, então, lhe diz que ele havia feito grandes progressos para um jovem que viveu tanto tempo no isolamento.

Fonte: