"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém" Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios

"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém [...]". (Carta do Apóstolo Paulo aos cristãos. Coríntios 6:12) Tudo posso, tudo quero, mas eu devo? Quero, mas não posso. Até posso, se burlar a regra; mas eu devo? Segundo o filósofo Mário Sérgio Cortella, ética é o conjunto de valores e princípios que [todos] usamos para definir as três grandes questões da vida, que são: QUERO, DEVO, POSSO. Tem coisas que eu quero, mas não posso. Tem coisas que eu posso, mas não devo. Tem coisas que eu devo, mas não quero. Cortella complementa "Quando temos paz de espírito? Temos paz de espírito quando aquilo que queremos é o que podemos e é o que devemos." (Cortella, 2009). Imagem Toscana, Itália.































terça-feira, 14 de agosto de 2012

O ENIGMA DE KASPAR HAUSER (1812?-1833): UMA ABORDAGEM PSICOSSOCIAL

Maria Clara Lopes Saboya1
Fundação Instituto Tecnológico de Osasco
A partir de uma abordagem histórico-cultural em Psicologia, este trabalho analisa o percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser, um personagem real e enigmático que, quando encontrado em Nuremberg, em 1928, com supostamente 15 anos, não sabia falar, nem andar e não se comportava como humano. Até hoje o seu enigma persiste: apesar de muitas hipóteses e suspeitas, não se descobriu sua origem. Apoiando-se em estudos de Vygotsky e Luria, que indicam que a percepção depende, sobretudo, da práxis social, necessária para gestar o referencial cultural de apreensão da realidade, a autora analisa como se articulam linguagem e pensamento no desenvolvimento cognitivo de Kaspar Hauser e como ele concebe o mundo que o cerca, tendo sido privado dos filtros e estereótipos culturais que condicionam a percepção e o conhecimento.


Descritores: Hauser, Kaspar. Cultura. Educação. Estigma. Linguagem. Socialização.
Vocês não ouvem os assustadores gritos ao nosso redor que habitualmente chamamos de silêncio?
(Prólogo do Filme O Enigma de Kaspar Hauser de Herzog, 1974)
1. Introdução
Trabalhando com a perspectiva histórico-cultural em Psicologia, que enfatiza que cada ser humano se constitui como uma pessoa totalmente única (por suas experiências e sua história de vida) e que ressalta a importância das práticas culturais na definição do desenvolvimento psicológico do sujeito, buscou-se selecionar um personagem humano (Kaspar Hauser) que não correspondia, na época em que viveu (séc. XIX), aos padrões de comportamento tidos ou esperados como "normais" dentro da cultura da época.
Pretende-se analisar neste trabalho o percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser, buscando a compreensão de fatores que concorreram para a construção de seu psiquismo.
Para efetuar esta análise, pretende-se utilizar as referências sobre a vida do rapaz encontradas em diversas fontes, inclusive jornais e, principalmente, no filme O Enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog (1974) e nos livros Kaspar Hauser ou a Fabricação da Realidade, de Izidoro Blikstein (1983) e The Lost Prince: The Unsolved Mistery of Kaspar Hause, de Jeffrey Moussaieff Masson (1997).
2. A história de Kaspar Hauser
O menino Kaspar Hauser apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg, em maio de 1828. Era um estranho: ninguém sabia quem era ou de onde vinha. Trazia uma carta de apresentação anônima para o capitão da cavalaria local, contando que fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um cavaleiro como fora seu pai.
Ficou-se sabendo mais tarde (quando K. Hauser aprendeu a falar) que uma pessoa, que ele não conheceu, tratava dele enquanto esteve isolado, deixando-lhe alimentos enquanto ele dormia.
Acolhido na casa de um professor que se ocupou de iniciar sua socialização, é assassinado em 1833 (o filme de Werner Herzog sugere que K. Hauser foi assassinado pelo próprio pai).
Quando apareceu em Nuremberg, o garoto não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: "quero ser cavaleiro" e não sabia andar direito. Parecia um menino dentro de um corpo adolescente. Seu comportamento estranho para os padrões sócio-culturais estabelecidos, causava um misto de espanto e interesse. Era visto como um "garoto selvagem," apesar de demonstrar ser dócil, simples e gentil. Possuía algumas habilidades peculiares interessantes, descritas tanto no filme de Herzog, quanto na obra de Masson: conseguia enxergar muito longe, no escuro, e sabia tratar os animais, principalmente os pássaros. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas e fugia delas aterrorizado. Numa das cenas, atraído pela chama de uma vela, colocava seu dedo no fogo e, ao sentir dor, aprende que a chama queima.
Graças à sua curiosidade infantil e memória notável, aprendeu várias coisas muito depressa.
Kaspar Hauser tornou-se uma espécie de atração por sua história de vida diferente. Todas as pessoas da cidade queriam vê-lo. O filme de Herzog mostra, em uma das cenas, K. Hauser junto com outros indivíduos, tidos como anormais (um anão, um índio e uma criança autista), em exposição num circo.
Um ano depois de ter chegado a Nuremberg, foi ferido e recebeu um grande corte na fronte. Em dezembro de 1833, recebeu outro ferimento que lhe seria fatal. Herzog sugere, em seu filme, que os dois ferimentos sofridos por K. Hauser foram tentativas de assassiná-lo. Masson diz, em seu livro, que em dezembro de 1833, K. Hauser foi atraído para uma emboscada, com a promessa de receber informações sobre seu nascimento. No local, em vez disso, recebeu uma facada no peito, morrendo três dias depois.
3. O enigma de Kaspar Hauser
Muitas foram as hipóteses levantadas para explicar o fato de Kaspar Hauser ter sido criado no isolamento. Dentre essas hipóteses há duas explicações principais:
  • a primeira diz que Kaspar Hauser seria um mendigo espertalhão que fingia ser pobre de espírito para atrair a simpatia alheia. Dentro dessa visão, ele próprio teria se ferido para atrair mais atenção, ao perceber que o interesse dos outros por sua figura estava diminuindo.
  • a segunda explicação trabalha com a hipótese de que Kaspar Hauser seria neto de Napoleão Bonaparte.
O livro de Masson (1997) oferece documentação variada sobre esta segunda hipótese, argumentando que a filha adotiva de Napoleão, Stéphanie de Beauharnais, tinha-se casado com Karl, duque de Baden e, em 1812, ambos tiveram um filho a quem ela teria dado o nome de Gaspard. No entanto, Luise, a madrasta de Karl, segunda mulher de seu pai, querendo garantir para seu próprio filho a herança do trono de Baden, trocou o filho de Karl e Stéphanie por uma criança doente que morreu logo depois.
O herdeiro saudável foi posto a pão e água em um calabouço, atendido por um homem cujo rosto ele nunca via. Passava seu tempo dormindo ou brincando com um cavalinho de pau. Quando chegou perto da adolescência, o homem que cuidava dele levou-o para Nuremberg.
A fama que começou a granjear preocupou os conspiradores, a tal ponto, que recrutaram um inglês, o Conde de Stanhope, para aproximar-se do garoto, fingindo ser um amigo que queria protegê-lo. Segundo Masson, teria sido Stanhope o responsável pelas duas tentativas de assassinar Kaspar Hauser; na verdade, o crime nunca foi esclarecido.
Porém, a tese de Masson de que Kaspar Hauser seria um príncipe perdido foi refutada por um exame de DNA, cujo resultado, revelado em abril de 1997, na Alemanha, mostra que Kaspar Hauser não era herdeiro do trono de Baden, como se acreditava.2
Dois institutos forenses da Alemanha compararam restos de sangue achados na roupa de Kaspar Hauser com o sangue de duas mulheres da dinastia de Baden, ainda vivas. Ficou provado, então, que Kaspar Hauser não pertencia a essa linhagem - e o enigma foi retomado.
4. Análise do percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser
Criado no isolamento e privado de educação, condicionamento e repressão, é este processo de integração que Kaspar Hauser sofrerá em Nuremberg, e seu instrumento principal será a linguagem, pela qual a sociedade tentará fazê-lo conceber aquilo que sua natureza não concebe: a representação.
O século XIX, época em que Kaspar Hauser viveu, foi um período marcado pela perspectiva positivista, evolucionista e desenvolvimentista. A visão de que havia um modelo de civilização e de desenvolvimento a ser alcançado, tanto pelos homens, como pelas sociedades, estava em seu auge. Todos aqueles que não correspondiam ao protótipo do homem "civilizado" eram classificados como primitivos, atrasados e deveriam ser "ajudados" a alcançar graus mais avançados na escala de desenvolvimento e evolução. É dentro dessa visão de mundo que Kaspar Hauser vai ser socializado.
Ao chegar em Nuremberg Kaspar Hauser sabe apenas repetir, com dificuldade, a mesma frase ("quero ser cavaleiro como meu pai"). A sociedade o vê com estranheza. Ele próprio se vê, de repente, num mundo estranho. O filme de Werner Herzog mostra Kaspar Hauser na praça de Nuremberg com um olhar assustado. Na verdade tudo lhe é estranho: as dimensões, os movimentos, a perspectiva, o pensamento, a fala.
Com o tempo aprende a falar. Mas mesmo a linguagem não lhe permite capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. Numa das passagens do filme Kaspar Hauser olha, do campo, a torre em que fica seu quarto e observa que ela é muito menor do que ele próprio. "Como pode ser isto?" pergunta.
Kaspar Hauser se sente confuso pois não tem a mínima noção de que a distância de onde observava criara uma perspectiva que fazia com que a torre parecesse menor do que realmente era.
Quando seu tutor aproxima-se com ele da torre, vem a observação: "Como esta torre é grande! O homem que a construiu deve ser muito alto!"
A paisagem em que Kaspar Hauser foi colocado, apesar de explicada pela linguagem, pelas palavras, por signos lingüísticos, permanece, para ele, indecifrável. Muitas vezes, pedia para contar histórias que imaginava, mas não conseguia verbalizar o conteúdo pensado.
Conhecer o mundo pela linguagem, por signos lingüísticos, parece não ser suficiente para Kaspar Hauser "talvez por que a significação do mundo deve irromper antes mesmo da codificação lingüística com que o recortamos: os significados já vão sendo desenhados na própria percepção/cognição da realidade" (Blikstein, 1983, p. 17). Nesse sentido, também Vygotsky insiste que o pensamento e a linguagem se originam independentemente, fundindo-se mais tarde no tipo de linguagem interna que constitui a maior parte do pensamento maduro.
Kaspar Hauser parece não entender as explicações que lhe dão. As pessoas impõem todos os tipos de signos a ele, na certeza de que compreenderá o insólito ambiente que o cerca. Como K. Hauser poderia compreender o significado das palavras e que elas representam coisas, se não passou por um processo de aprendizado e socialização necessários para que compreendesse a representatividade dos signos? Blikstein (1983) diz que a educação não passa de uma construção semiológica que nos dá a ilusão da realidade; ou seja, a educação vai estimulando na criança um processo de abstração. É justamente esse processo que K. Hauser não vivenciou.
A forma diferente como ele percebia a realidade parecia suficiente para que fosse visto como "diferente," estranho, o "outro" pela sociedade da época. Ele próprio se via como um estranho, deslocado, frágil e impotente diante de uma realidade que não conseguia compreender, pelo menos não da forma como esperavam que ele compreendesse.
Os objetos não eram percebidos por K. Hauser da forma como a prática social definia previamente, ou seja, K. Hauser estava despido dos "filtros" e estereótipos culturais que condicionam a percepção e o conhecimento. Tais "filtros" ou estereótipos, por sua vez, são garantidos e reforçados pela linguagem. Assim, o processo de conhecimento da realidade é regulado por uma contínua interação de práticas culturais, percepção e linguagem.
A forma como Kaspar Hauser compreende o mundo e se relaciona com ele indica que a percepção depende sobretudo da prática social. Sabemos que, do nascimento à adolescência, K. Hauser esteve isolado de qualquer contexto ou prática social. O que podemos verificar no seu percurso de desenvolvimento psicológico é que a despeito da ação da linguagem (adquirida na fase adulta) ou de um eventual "potencial" inato, K. Hauser não consegue captar o mundo como o faz a sociedade que o cerca, ou seja, decodifica à sua maneira, com uma lógica diferente da estabelecida, a significação do mundo. Fica evidente, então, que o seu sistema perceptual está desaparelhado de uma prática social3 necessária para gestar o referencial cultural de interpretação da realidade.
Podemos concluir que, como Kaspar Hauser não passou por um processo de socialização, onde exercitaria a compreensão através da prática social, não consegue atribuir significado às coisas, mesmo tendo adquirido a linguagem. Assim, analisando o caso de Kaspar Hauser, somos levados a pensar que não apenas o sistema perceptual, mas as estruturas mentais e a própria linguagem são resultantes da prática social, ou seja, as práticas culturais "modelam" a percepção da realidade e o conhecimento por parte do sujeito.
Em virtude de não ter sido exposto a essa "modelagem" cultural, Kaspar Hauser era visto como um ser "incompleto," como se estivesse sempre em "déficit" em relação aos outros; teria Kaspar instrumental de reflexão internalizado para construir a compreensão da diferença? Aqui parece ser possível detectar uma inverossimilhança no filme de W. Herzog: numa das cenas, K. Hauser diz a uma das pessoas que o acolheu: "Ninguém aceita Kaspar." Segundo o filme, ele tem consciência de sua situação. Porém, na realidade, parece não ser possível esse grau de consciência em alguém que não tem instrumental de reflexão internalizado.
Kaspar Hauser se sente perturbado pelo mundo: "o mundo é todo mau," comenta com seu tutor após perceber que alguém pisou as flores que plantara no jardim.
Tanto Masson (1997), quanto Herzog (1974) e Blikstein (1983), apontam para o fato de que após algum tempo de convivência com a comunidade de Nuremberg, Kaspar Hauser passa a representar um incômodo, pois vê a realidade, que aos olhos dos outros estava tão bem ordenada, com outros olhos: os olhos "subversivos" que não aceitam os referenciais que a sociedade insiste em lhe impor, negando, de certa forma, a ordem social vigente. Ele olha as pessoas, os objetos e as situações com o espanto e a perplexidade de um olhar "puro," sem "filtros" ou estereótipos perceptuais. A sua aproximação cognitiva da realidade é direta, ou seja, percebe o mundo de uma maneira ainda não programada pela estereotipia cultural.
Vygotsky, citado por Oliveira (1997, p. 24), diz que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas uma relação mediada, sendo que os sistemas simbólicos são os elementos intermediários entre o sujeito e o mundo; porém, tendo vivido no isolamento, K. Hauser não aprendeu nem internalizou este sistema simbólico que, para ele, não fazia sentido.
Somente depois de muito tempo convivendo com a comunidade de Nuremberg é que Kaspar Hauser começa a entender a relação simbólica e a relação de representatividade entre os signos e as coisas concretas.
Em um dos diálogos no filme de Herzog, K. Hauser conta ao seu tutor que havia sonhado com uma caravana. O tutor fica animado e lhe diz: "que bom Kaspar! Você fez um grande progresso! Já sabe a diferença entre o sonho e a realidade! Até a semana passada você não fazia esta distinção, acreditava que as coisas sonhadas haviam acontecido realmente ..."
A partir desse momento, Kaspar começa a se situar em relação ao mundo e às pessoas que o cercam. Parece tomar consciência de que era diferente dos outros e que, por isso, muitas vezes, era hostilizado.
Nesse sentido, Blikstein (1983) afirma que o que concebemos como realidade é apenas uma ilusão, pois a práxis opera em nosso sistema perceptual, ensinando-nos a "ver" o mundo com os "óculos sociais" e gerando conteúdos visuais, tácteis, olfativos e gustativos que aceitamos como naturais. Como Kaspar Hauser não passou por esta práxis, ou apenas começou a vivenciá-la quando adolescente, sua forma de comportamento abala os fundamentos da ilusão referencial, pois não "enxerga" a realidade da forma como os outros esperam. Essas expectativas das pessoas em relação a K. Hauser fazem com que sua identidade, já bastante comprometida devido à ausência de um passado familiar, torne-se ainda mais deteriorada.
K. Hauser não é reconhecido como parte da sociedade e ele próprio não se reconhece como parte dela. Em uma reunião da qual fora convidado a participar, em que estavam vários membros da alta sociedade, foi apresentado à esposa do prefeito de Nuremberg, que lhe perguntou como era sua prisão e ele respondeu: "melhor do que aqui fora."4 Vai sofrendo, assim, um processo de estigmatização que o marca, não apenas como "diferente" ou "anormal," mas também como alguém que não possui identidade.
Goffman (1988) define como estigmatizado o indivíduo que poderia ter sido recebido facilmente na relação social cotidiana, se não possuísse um traço que chama a atenção e afasta aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus. Ele possui uma característica diferente do padrão esperado. É exatamente o que ocorreu com K. Hauser. Embora ele tivesse muitos atributos e uma inteligência prodigiosa que lhe permitia aprender as coisas muito rapidamente é visto, por exemplo, como insensível porque não demonstra medo diante de um soldado que lhe mostra uma espada (que para os outros representa um sinal de perigo). Assim, não correspondia às expectativas de comportamento, ou seja, aos padrões de comportamento esperados de um jovem da sua idade.
Goffman afirma que acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente reduzimos sua chance de vida. Construímos uma teoria do estigma, uma ideologia para explicar a sua "inferioridade" e dar conta do "perigo" que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em outras diferenças como as de classe social. Vemos que isso ocorre, também, no filme de Herzog, quando é aventada a hipótese de que Kaspar Hauser seja filho de algum nobre (e que por disputas palacianas teria sido afastado e escondido), e o capitão da cavalaria diz que isso seria impossível, pois "K. Hauser tem traços muito grosseiros para ser um nobre"; e, quando, ao final do filme, os legistas acreditam finalmente ter encontrado as explicações para todos os "problemas" de Kaspar: uma pequena deformidade que ele possuía no cérebro. Dessa forma, o caso foi dado, na época, como solucionado: havia uma explicação racional, objetiva (porque visível e palpável - o cérebro), de caráter fisiológico e que concentrava no próprio indivíduo a "culpabilidade" de sua situação.
5. Conclusão
O caso de Kaspar Hauser serve para ilustrar o erro básico de uma organização social fundada sobre os princípios do racionalismo positivista.
Mostra-nos que a "humanização" do homem, entendida como socialização, não é uma decorrência biológica da espécie, mas conseqüência de um longo processo de aprendizado com o grupo social.
Através desse processo, o indivíduo se integra no grupo em que nasceu, assimilando o conjunto de hábitos e costumes característicos desse grupo. Participando da vida em sociedade, aprendendo suas normas, valores e costumes, o indivíduo está se socializando, reprimindo suas características instintivas e animais e desenvolvendo as sociais e culturais, fazendo, assim, a "passagem da natureza para a cultura," aprendendo a ver com os "óculos sociais," tornando-se, como nos disse C. Dickens, "um animal de costumes."
Kaspar Hauser nunca se transformou nesse animal de costumes; no máximo, poderia ser visto como "domesticado" pela sociedade da época.
Alguém como Kaspar Hauser que enxergava, mesmo na escuridão, e que ouvia os "gritos do silêncio" (coisas inconcebíveis para o homem "civilizado"), não poderia ser visto como "normal."
Mesmo tendo aprendido a andar, falar e escrever e apesar de haver internalizado símbolos de comportamentos, Kaspar Hauser nunca seria considerado um "igual" pela comunidade de Nuremberg, pois sua história de vida estava inevitavelmente marcada pelo estigma da rejeição.
Na lápide de Kaspar Hauser, no cemitério de Ansbach, na Alemanha, há uma inscrição que diz: "Hic occultus occultu uccisus est." Quer dizer: "Aqui jaz um desconhecido assassinado por um desconhecido." Nada resume melhor o misterioso percurso da vida e morte deste homem.
Saboya, M. C. L. (2001). The Mystery of Kaspar Hauser (1812?-1833): A Psychosocial Approach. Psicologia USP, 12 (2), 105-116.
Abstract: Starting from a historical-cultural approach in Psychology, this work analyzes the development of Kaspar Hauser, a real and enigmatic character that didn't know how to speak, nor to walk and didn't behave as a human being when he was found in Nuremberg, in 1928, at supposedly age 15. Still today, his enigma remains: in spite of a lot of hypotheses and suspicions we have not yet discovered its origins. Leaning on studies of Vygotsky and Luria, which indicate that the perception depends, above all, on the social practice which is necessary to produce the cultural reference for the apprehension of reality, the author analyzes how language and thought are articulated in Kaspar Hauser's cognitive development and how he conceives the world that surrounds him, having been deprived from the filters and cultural stereotypes that stipulate the perception and knowledge.
Index terms: Hauser, Kaspar. Culture. Education. Stigma. Language. Socialization.
Referências
Blikstein, I. (1983). Kaspar Hauser ou a fabricação da realidade. São Paulo: Cultrix / EDUSP. [ Links ]
O Estado de São Paulo (1997, 09 de março). p. D-6. [ Links ]
Goffman, E. (1988). Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara. [ Links ]
Herzog, W. (1974). Jeder für sich und gott gegen alle. Alemanha: ZDF Produções (Original: Cada um por si e Deus contra todos. Traduzido como: O enigma de Kaspar Hauser) [ Links ]
Masson, J. M. (1997). The lost prince: The unsolved mystery of Kaspar Hauser. New York: Free House. [ Links ]
Oliveira, M. K. (1997). Vygotsky: Aprendizado e desenvolvimento, um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione. [ Links ]
Vygotsky, L. S., & Luria, A. R. (1996). Estudos sobre a história do comportamento: O macaco, o primitivo e a criança. Porto Alegre, RS: Artes Médicas. [ Links ]
Recebido em 20.07.2001
Aceito em 05.10.2001.
1 Mestranda na FEUSP - Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, professora na Fundação Instituto Tecnológico de Osasco. E-mail: saboya@usp.br
2 Esta notícia foi veiculada pelo jornal O Estado de S. Paulo, em 09 de março de 1997, p. D6.
3 A expressão prática social pode ser entendida, aqui, no sentido que lhe atribuiu Karl Marx, ou seja, como "praxis:" conjunto de atividades humanas que engendram não apenas as condições de produção, mas de um modo geral, as condições de existência de uma sociedade. Essa parece ser também uma idéia presente em Vygotsky e mais do que isso, um de seus pressupostos: "o homem transforma-se de biológico em sócio-histórico, num processo em que a cultura é parte essencial da constituição da natureza humana...não podemos pensar o desenvolvimento psicológico como um processo abstrato, descontextualizado...pois está baseado fortemente nos modos socialmente construídos de ordenar o real" (Oliveira, 1997, p. 24).
4 Esta é uma das cenas do filme de Herzog (1974), quando Kaspar Hauser é apresentado à alta sociedade como um fenômeno. É convidado a tocar piano e se mostra depressivo, pois após dois anos de estudo, não consegue tocar tão bem quanto um outro jovem que se apresentara anteriormente. Seu tutor, então, lhe diz que ele havia feito grandes progressos para um jovem que viveu tanto tempo no isolamento.

Fonte:

A Teoria da Eugenia



Prof. José Roberto Goldim


Ao longo da história da humanidade, vários povos, tais como os gregos, celtas, fueginos (indigenas sul-americanos), eliminavam as pessoas deficientes, as mal-formadas ou as muito doentes.
O termo Eugenia foi criado por Francis Galton (1822-1911), que o definiu como:
    O estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja fisica ou mentalmente.
Galton publicou, em 1865, um livro "Hereditary Talent and Genius" onde defende a ideia de que a inteligência é predominantemente herdada e não fruto da ação ambiental. Parte destas conclusões ele obteve estudando 177 biografias, muitas de sua própria família.
Galton era parente de Charles Darwin (1809-1882). Erasmus Darwin era avô de ambos, porém com esposas diferentes, Darwin descendeu da primeira, por parte de pai, e Galton da segunda, por parte de mãe. Darwin havia publicado "A Origem das Espécies" em 1858.

No seu livro, Galton propunha que "as forças cegas da seleção natural, como agente propulsor do progresso, devem ser substituidas por uma seleção consciente e os homens devem usar todos os conhecimentos adquiridos pelo estudo e o processo da evolução nos tempos passados, a fim de promover o progresso físico e moral no futuro".

O argentino José Ingenieros publicou, em 1900, um texto, posteriormente divulgado como um livro, denominado "La simulación en la lucha por la vida". Neste texto incluem-se algumas considerações eugênicas, tais como:
    "Por acaso, os homens do futuro, educando seus sentimentos dentro de uma moral que reflita os verdadeiros interesses da espécie, possam tender até uma medicina superior, seletiva; o cálculo sereno desvanecería uma falsa educação sentimental, que contribui para a conservação dos degenerados, com sérios prejuízos para a espécie".
Em 1908, foi fundada a "Eugenics Society" em Londres, primeira organização a defender estas ideias de forma organizada e ostensiva. Um de seus líderes era Leonard Darwin (1850-1943), oitavo dos dez filhos de Charles Darwin. Ele era militar e engenheiro. Em vários países europeus (Alemanha, França, Dinamarca, Tchecoslováquia, Hungria, Áustria, Bélgica, Suiça e União Soviética, dentre outros) e americanos (Estados Unidos, Brasil, Argentina, Peru) proliferaram sociedades semelhantes.
 
Segundo Oliveira, a Sociedade Paulista de Eugenia, foi a primeira do Brasil, tendo sido fundada em 1918. Na edição de 1920, Ingenieros ressaltou, em nota de rodapé, que as suas opiniões haviam sido confirmadas pela rápida difusão das ideias eugenistas em diferentes partes do mundo.

O 1o. Congresso Brasileiro de Eugenismo foi realizado no Rio de Janeiro, em 1929. Um dos temas abordado era "O Problema Eugênico da Migração". O Boletim de Eugenismo propunha a exclusão de todas as imigrações não-brancas. Em março de 1931 foi criada a Comissão Central de Eugenismo, sendo o seu presidente Renato Kehl e o Prof. Belisário Pena um dos membros da diretoria. Os objetivos desta Comissão eram os seguintes:
  1. manter o interesse do estudo de questões eugenistas no país;
  2. difundir o ideal de regeneração física, psíquica e moral do homem;
  3. prestigiar e auxiliar as iniciativas científicas ou humanitárias de caráter eugenista que sejam dignas de consideração.
Em vários países foram propostas políticas de "higiene ou profilaxia social", com o intuito de impedir a procriação de pessoas portadoras de doenças tidas como hereditárias e até mesmo de eliminar os portadores de problemas físicos ou mentais incapacitantes.

Jiménez de Asúa defendeu a ideia de que as políticas alemã, italiana e espanhola nesta área não eram eugenistas, mas sim "racismo" oriundo do nacional-socialismo alemão. Vale lembrar que as ideias alemãs se originaram do trabalho do Conde de Gobineau - "Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas" - publicado em 1854. Antes, portanto, das ideias darwinistas terem sido divulgadas e do termo Eugenia ter sido criado. O Conde de Gobineau esteve no Brasil, onde coletou dados. Neste ensaio foi feita a proposta da superioridade da "raça ariana", posteriormente levada a extremo pelos teóricos do nazismo Günther e Rosenberg nos anos de 1920 a 1937. Outro autor alemão, Gauch, afirmava que havia menos diferenças anatômicas e histológicas entre o homem e os animais, do que as verificadas entre um nórdico (ariano) e as demais "raças". Isto acabou sendo objeto de legislação em 1935, através das " Leis de Nuremberg", que proibiam o casamento e o contato sexual de alemães com judeus, o casamento de pessoas com transtornos mentais, doenças contagiosas ou hereditárias. Para casar era preciso obter um certificado de saúde. Em 1933 já haviam sido publicadas as leis que propunham a esterilização de pessoas com problemas hereditários e a castração dos delinquentes sexuais.

Jiménez de Asúa propunha que a Eugenia deveria se ocupar de três grandes grupos de problemas: a obtenção de uma descendência saudável (profilaxia), a consecução de matrimônios eugênicos (realização) e a paternidade e maternidade consciente (perfeição).
  • A profilaxia seria obtida através de ações tais como: combate às doenças venéreas, prostituição e pela caracterização do delito de contágio venéreo.
  • A realização ocorreria através da casais eugênicos e do reconhecimento médico pré-matrimonial.
  • A perfeição proporia meios para que fosse possível a limitação da natalidade, os meios anticoncepcionais, a esterilização, o aborto e a eutanásia.
Com o desenvolvimento das modernas técnicas de diagnóstico genético, do debate sobre os temas do aborto, da eutanásia e da repercussão da epidemia de AIDS, muitas destas idéias são discutidas com base em pressupostos eugênicos, sem que este referencial seja explicitamente referido.
Jiménes de Asúa L. Libertad para amar y derecho a morir. Buenos Aires: Losada, 1942:25-45.
Ingenieros J. La simulación en la lucha por la vida. 12ed. Buenos Aires: Schenone, 1920:166.
Oliveira R. Étique et medicine au Bresil. Villeneuve DÁscq (France):Septentrion, 1997:90-95.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Edgar Morin, a dialogia de um Sapiens-demens





Edgard de Assis Carvalho



Adentrar nas cavernas do homem, nos insondáveis e inesperados caminhos da alma parece ter sido a energia que impulsionou o pensamento de Edgar Morin a incursionar pelos labirintos da complexidade, um trabalho das e sobre as contradições sociais, culturais, políticas, subjetivas que caracterizam o mundo e a vida. Lembremos, de antemão  que "[...] em meados do século XIX, a humanidade levou um choque. Um cientísta inglês, geólogo e naturalista, ameaçou nosso lugar no pedestal dos seres vivos. Charles Darwin colocou-nos na incômoda companhia de todos os outros animais. Afirmou que todos somos frutos de uma mesma evolução biológica, assemelhando-nos a nossos parentes primatas. (Guerriero, 2008). No século XX fora a vez de Sigmund Freud provocar uma mudança na noção de 'pessoa', acrescentando à dimensão racional uma ligação profunda com forças irracionais, o inconsciente. Freud (1856-1939) desmistificou - com categoria - a autonomia da razão, revelando a medida em que o homem é levado por seu[s] instinto[s], pelo impulso erótico e por seu medo da morte. (PADILHA, 2006) Antes dele, o filósofo Arthur Schopenhauer já havia indicado que o ser é guiado não pela razão, mas pela vontade, descrita como uma força 'cega e irracional' que o anima. E, já próximo do século XXI, o pensador francês Edgar Morin propõe que o humano seja pensado além de sua dimensão racional, mas também em termos afetivos, emocionais, sensíveis, mesmo loucos - ao lado do Homo sapiens aparece o Homo demens. Trata-se de um movimento dialógico, hologramático e recursivo empreendido sobre o sistema-mundo que permite entrever o movimento das partes sobre o todo e do todo sobre as partes.

Há ideias nucleares em toda a obra. A mais central é a da unidualidade do homem, um ser físico e metafísico, natural e meta-natural, cultural e metacultural que se estabeleceu no cosmo há cerca de 130 mil anos e que possibilitou a um pequeno bípede, com um cérebro muito assemelhado ao de um chimpanzé, criar uma cognição cultural que o afastou da ordem estritamente biológica, caracterizada pela universalidade dos instintos. “Surgiu bem cedo o paradigma de conquista no processo de hominização. Saiu da África de onde irrompeu como “homo erectus”, há sete milhões de anos, pôs-se a conquistar o espaço, começando pela Eurásia, passando pela Ásia, América e terminando pela Oceania. Com o crescimento de ser crânio, evoluiu para “homo habilis”, inventando, por volta de 2,4 milhões de ano atrás, o instrumento que lhe permitiu alargar ainda mais sua capacidade de conquista. [...] Praticamente tudo está sob o signo de conquista. Conquistar a Terra inteira, os oceanos, as montanhas mais inacessíveis e os recantos mais inóspitos.” (BOFF apud LORENZO, 2003). No tempo, essa singularidade acabou por fazer com que a cultura fosse entendida como algo apartado da natureza, ainda que mediações, como a proibição do incesto, o trabalho, a linguagem, procurassem estabelecer a passagem das compulsões biológicas às diversidades criativas propiciadas pelo modelo cultural universal.

Entender o homem como um vivente cosmo-psico-bio-antropossocial implica devolvê-lo ao império da natureza, sem retirá-lo da república da cultura, descentrá-lo de sua superioridade, para reinseri-lo na diáspora cósmica universal.
Por isso, sua autonomia de ser-sujeito deve ser dissecada nos fundamentos da physís e do bios. Falar em sujeito autônomo implica reconhecer sua auto-organizarão, produto da própria organização biopsíquica. Implica, igualmente, definir o homem como um ser totalmente biológico e totalmente cultural. Diante dessa dupla articulação, é forçoso reconhecer que o Sapiens-demens é capaz de edificar noologias que circundam a vida das ideias, do espírito e da própria sociedade. Mesmo assim, a animalidade continua a ser a marca fundamental de qualquer indivíduo vivo, seja ele uma bactéria, um rinoceronte, uma ameba, ou um Homo Sapiens Sapiens. Qualquer indivíduo é sujeito na medida em que faz referência a si, e a não-si, reorganiza o ecossistema, produz autopoiesis, num movimento organizatório recursivo em que causas e efeitos interagem mutuamente, impulsionando o sistema para outras direções. Essa auto-eco-organização do sistema vivo nutre-se de acasos, tensões, contradições, erros, que o reordenam de modo mais complexo, como se a relação ordem-desordem-reorganização, cercada de antagonismos, complementaridades e concorrências estabelecesse uma dispersão em espiral na configuração do todo.


Embora a formulação dos pressupostos da epistemologia complexa só viesse a se sistematizar no pensamento edgar moriniano a partir dos anos 1960, eles já se encontram cimentados nos trabalhos da década anterior, com as desavenças da morte, a magia do cinema, as epifanias do star-system, que põem a nua desordem sapitental originária. Nossas personalidades não vivem nunca numa democracia plena. Submetem-se a forças tirânicas incontidas, a pulsões desenfreadas, que lutam por se tornar dominantes e atuantes, para caotizarem o ser-sujeito ou para imprimir-lhe novas reorganizações. Nesse equilíbrio/desequilíbrio entre ordem/desordem é que se tecem todas as projeções-identificações que constituem o mundo, a natureza e a matéria, uma rede na qual o real-em-si não dá mais conta da realidade, e isso porque real/virtual, real/mágico, real/imaginário impregam a totalidade das relações bioculturais.

"A ideia que se possa definir homo, dando-lhe a qualidade de sapiens, isto é, de um ser razoável e sábio, é uma ideia pouco razoável e pouco sábia. Homo é também demens: manifesta uma afetividade extrema, convulsiva, com paixões, cóleras, gritos, mudanças brutais de humor; traz em si uma fonte permanente de delírio; crê na virtude de sacrifícios sangrentos; dá corpo, existência, poder a mitos e deuses da sua imaginação. Há no ser humano um salão permanente de Ubris, a desmesura dos Gregos. A loucura humana é fonte de ódio, crueldade, barbárie, cegueira. Mas sem as desordens da afetividade e as irrupções do imaginário, sem a loucura do impossível, não existiria entusiasmo, criação, invenção, amor, poesia. Do mesmo modo, o ser humano é um animal não só insuficiente em razão mas também dotado de sem-razão. Todavia, temos necessidade de controlar o Homo Demens para exercer um pensamento racional, argumentado, crítico, complexo. Temos necessidade de inibir, em nós, o que demens tem de mortífero, mesquinho, imbecil, perverso, erótico, transgressor. Temos necessidade de sabedoria, que nos pede prudência, temperança, cortesia, desprendimento. Prudência, sim; mas não será a prudência a esterilizar as nossas vidas ao evitar o risco a todo o preço? Temperança, sim, mas será necessário evitar a experiência da «consumação» e do êxtase? Desprendimento, sim, mas será necessário renunciar aos laços da amizade e do amor?
O mundo em que vivemos é, talvez, um mundo de aparências, a espuma de uma realidade mais profunda que escapa ao tempo, ao espaço, aos nossos sentidos e ao nosso entendimento. Mas o nosso mundo da separação, da dispersão, da finitude, é também o da atração, do encontro, da exaltação. Estamos completamente imersos neste mundo que é o dos nossos sofrimentos, das nossas felicidades e dos nossos amores, das nossas ausências, das nossas carências. Não sentir é evitar o sofrimento mas também o regozijo. Quanto mais aptos estamos para a felicidade mais aptos estamos para a infelicidade. O Tao-tö-Kung diz precisamente: «a infelicidade caminha de braço dado com a felicidade, a felicidade deita-se aos pés da infelicidade.»
Estamos condenados ao paradoxo de conservar em nós, simultaneamente, a consciência da vacuidade do nosso mundo e a da plenitude que nos pode trazer a vida, quando quiser ou puder. Se a sabedoria nos pede para nos desprendermos do mundo da vida, será ela verdadeiramente sábia? Se aspiramos à plenitude do amor, seremos nós verdadeiramente loucos?
A partir dos anos 1970, a antropologia fundamental de Edgar Morin passará a ter contornos mais claros, no sentido de modelizar a complexidade organizacional do fenômeno humano. Se algum fundamento deve ser buscado nesse macroobjetivo, ele deve estar situado numa profunda insatisfação com o conhecimento disjuntor, produto do grande paradigma do Ocidente, simplificatório, que, além de dualizar razão/imaginação, sujeito/objeto, liberdade/determinismo, sensível/inteligível, pensamento selvagem/pensamento domesticado, separa, hierarquiza, distingue, degenera o saber numa concepção mutilante. Esse paradigma, uma espécie de cânone, mindscape, constituído por princípios ocultos que comandam a ciência e a própria subjetividade, tornou-se hegemônico, determinista, hiperespecializando os diversos campos cognitivos em compartimentos não-comunicantes. Muitas vezes já foi reiterado o significado etimológico da palavra complexo como aquilo que se tece em conjunto, que reassocia o que está dissociado, que comunica o que está incomunicável. Essa complexidade não é algo novo, identificado com o nihilismo, irracionalidade, pós-modernidade ou até com auto-ajuda, qualificativo que detratores e ressentidos se esmeram em murmurar nos frios corredores da academia. Se a ideia adorniana de que a totalidade é a não verdade é recorrente na totalidade da obra, o desafio parece sinalizar a necessidade de civilizar as ideias, para que seja possível reorganizar todo o processo de conhecimento, dar novo sentido à vida, perceber que sociedade, cultura, cerebralização são aspectos de um mesmo processo de auto-organização complexificador. Mais que isso, as epifanias imaginárias e as desavenças da subjetividade não são meros epifenômenos, mas elementos constitutivos de um processo sócio-histórico que explicita, desde sempre, a unidualidade do Sapiens-demens. Caminhando pelas margens da vida e do conhecimento, fiel à concepcão sintética de vida, elaborada desde a juventude, Edgar Morin exibe suas partes malditas (desordem) e benditas (ordem), sua unidualidade, num esforço de dialogizar sua própria singularidade/universalidade, traduzindo-a num panteão transdisciplinar de ideias que impõem uma reforma do e para o pensamento. Como um bionauta, navegador empedernido da vida, era preciso meditar, refletir e muito sobre a physis, a biocosmologia, o acaso, a biopolítica, o cérebro, numa tentativa de compreender a natureza da natureza, a vida da vida, o conhecimento do conhecimento, as ideias e as identidades, títulos dos cinco volumes publicados de O Método. Se alguém procurar nesses cinco livros um receituário linear de procedimentos e técnicas de pesquisa, pode afastar-se de imediato da leitura. La Metode é uma viagem transversal através de blocos de saber, de metapontos de vista sobre os sistemas vivos, de religações cognitivas, éticas e estéticas que permitem equacionar uma política civilizacional para o planeta como um todo.

Resta saber se essa regeneração ser á efetivada a ponto de colocar um ponto final na idade de ferro planetá-ria. Em 1994, Edgar nos convocava a assumir Sísifo como guia imaginário para nossas ações. Como se sabe, Sísifo foi condenado por Zeus aos Infernos, tendo como castigo rolar um rochedo até o alto de uma montanha, de onde a pedra sempre voltava a cair, em virtude de seu próprio peso. Essa tarefa que nunca dava descanso ao herói, nem lhe permitia fugir de seu vaticínio, deve ser a tarefa de todos aqueles que ainda acreditam que o caleidoscópio de suas vidas e suas ideias vale para alguma coisa. Nos idos de 1995, em uma de suas peregrinações planetárias, foi ele a Sarajevo, cidade onde sérvios bósnios, muçulmanos e croatas se defrontavam pelo controle diabólico de um território que, a rigor, pertencia a todos eles. Na Universidade sitiada pronunciou um discurso em que enfatizava que os atentados à cidade representavam uma agressão à alma do mundo e à pretendida reunificação européia. Lá foi reiterado que a idéia de nação é sempre matripatriótica; lá foi demonstrado que a fragmentação da Europa pós-comunista em conjuntos poliétnicos rivais representa um retrocesso à fraternização planetária; lá foi enfatizado que o destino europeu se encontra preso a uma luta titânica entre forças dissociativas e de ruptura e forças associativas, solidárias e confederadas. Essa luta não se restringe, porém, apenas a um local. Ela atravessa a rede planetária em seu conjunto, como que dominada pela dialogia da pulsão da vida e da pulsão da morte. Ao intitular a homenagem aos 80 anos de Edgar Morin, um humanista planetário, a Unesco soube reconhecer e atualizar o adágio de Antônio Machado que acomete a todos aqueles que se sensibilizam com as infindáveis religações que os saberes culturais ainda terão que realizar: "Caminhante não há caminho, pois o caminho se faz ao andar".

Edgard de Assis Carvalho
GUERRIERO, Silas, in Antropos e Psique - AS ORIGENS DO ANTROPOS, 8ª ed., Olho D’água, 2008.

PADILHA, Tarcísio. Conferência proferida no Ciclo “Razão e Espiritualidade” da Academia Brasileira de Letras, em 29 de agosto de 2006.
, professor do Departamento de Antropologia da PUC-SP.
Fonte: MARGEM, SÃO PAULO, No 16, P. 167-170, DEZ. 2002 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

HISTÓRIA - O CRESCENTE FÉRTIL





Crescente fértil é o nome dado a uma região do Oriente Médio, historicamente habitada por diversos povos e civilizações desde os mais primitivos estágios de evolução do homem moderno. Seu nome deriva precisamente do fato dessa região, em forma de lua crescente, ser extremamente propícia à agricultura, literalmente “rasgando” áreas desérticas completamente inóspitas, impróprias para povoamento constante e estável.
Tal condição vantajosa à ocupação humana advém do fato dessa região acompanhar o curso dos rios Tigre e Eufrates, (que nascem entre as montanhas Taurus, localizadas na atual Turquia) permitindo assim o pleno acesso a água potável, que também serve para a irrigação das lavouras locais, bem como para criação de gado.
O Crescente abrange as áreas da Mesopotâmia e do Levante (os territórios ou partes dos territórios de Palestina, Israel, Jordânia, Líbano, Síria e Chipre), delimitado ao sul pelo deserto da Síria e ao norte o Planalto da Anatólia.




A região é frequentemente denominada o “berço da civilização”, por ser ali o local de nascimento e desenvolvimento de vários povos, que atestadamente, antes de quaisquer outros em outras regiões do planeta, iniciaram o processo de desenvolvimento civilizatório como até hoje o reconhecemos, como por exemplo, através do estabelecimento em um determinado local em detrimento do nomadismo, o desenvolvimento de cidades, da agricultura, da roda, da escrita, de diversas ferramentas, além do desenvolvimento do comércio, isso tudo já existente por volta de 8000 anos atrás naquela mesma área.
Apesar da primazia da região, e de sua antiguidade com relação à ocupação humana, o termo “Crescente Fértil” é de criação bastante recente, tendo sido utilizado pela primeira vez pelo arqueólogo James Henry Breasted, na sua obra “Ancient Records of Egypt“, de 1906. Tendo sido considerada bastante feliz tal expressão, esta passou então a ser de comum uso dentre os mais diversos estudiosos.
Além de área estratégica de passagem entre a África e a Eurásia, o Crescente Fértil também abriga uma rica biodiversidade. As mudanças durante as eras glaciais contribuíram para o constante surgimento e extinção de várias espécies animais e vegetais locais.
Obviamente, torna-se indispensável mencionar o rico legado arqueológico contido no Crescente Fértil, pela sua imediata ocupação, datada mesmo antes do surgimento do homem moderno, habitante de cidades, cultivador e criador de gado. Vestígios de culturas pré-modernas (homens pré-históricos, caçadores/coletores) bem como das primeiras culturas modernas estão por toda parte do denominado Crescente Fértil.
Os estados que atualmente possuem terras localizadas no Crescente Fértil são: Iraque, Jordânia, Líbano, Síria, Egito, Israel e Palestina, além da parte sul da Turquia e da área mais ocidental do território do Irã.

Atividade para os 6ºs anos: Pense e Responda (Capítulo 4 - página 59)
Questões para serem respondidas nesta atividade.
Leia atentamente o texto e observe o mapa do Crescente Fértil (primeiro mapa) e responda:

1ª. Sabendo que as regiões nas proximidades tanto dos rios Tigre e Eufrates quanto do rio Nilo localizam-se em terras altas ou desérticas, explique: como a natureza do crescente fértil determinou a ocupação populacional nessa região?

2ª A partir do que você estudou no texto e nos capítulos anteriormente estudados, responda: o crescente fértil poderia ter sido espaço para um processo de Revolução Agrícola?

sábado, 5 de maio de 2012

TRABALHOS CIENTÍFICOS - TCC



ORIENTAÇÃO METODOLÓGICA PARA TCC E DEMAIS TRABALHOS CIENTÍFICOS (ARTIGO CIENTÍFICO, RESENHA, RESUMO, MONOGRAFIA); CORREÇÃO ORTOGRÁFICA (NOVA ORTOGRAFIA); FORMATAÇÃO CONFORME NORMAS DA ABNT; PREPARAÇÃO PARA BANCA. mariliacoltri@gmail.com

sábado, 31 de março de 2012

João José Negrão


Por Juliana Sandres e Guilherme Souza

Em referência ao conjunto de eventos ocorridos em 31 de março de 1964 no Brasil, que culminaram no Golpe Militar no dia 1 de abril de 64, o entrevistado desta semana é o jornalista e doutor em Ciências Sociais João José Negrão.
Negrão tem 55 anos, é professor do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp) e especializado em jornalismo político e jornalismo econômico. Nesta entrevista ele conta um pouco de como era o Brasil antes do Golpe de 64, quais os fatores que acarretaram a tomada do poder pelos militares e analisa como seria o Brasil se o país não tivesse passado por 21 anos de ditaduta.



Giro Regional: Como foi o processo que culminou no Golpe de 64?
Negrão: O Golpe, se a gente olhar do ponto de vista histórico, ele é o resultado de algumas tentativas que setores mais conservadores da direita brasileira já vinham tentando fazer desde 1954/1955.
O Golpe de 64 é o coroamento de um processo que começou em 54, quando essas mesmas forças reacionárias levaram ao suicídio do Getúlio Vargas. Naquele momento, como o suicídio do Getúlio causou uma comoção popular muito marcante, os golpistas recuaram. Recuaram mas continuaram se articulando, continuaram tentando um golpe que veio a se configurar 10 anos depois, em 64.


Giro Regional: Qual foi o objetivo do Golpe de 64 e quanto tempo durou o regime militar?
Negrão: A gente pode dizer que desde um pouco antes de 64 as forças populares vinham aumentando a sua força. É uma loucura imaginar que a gente tinha um governo socialista, que o governo de Jango (João Goulart) era um governo socialista.  Não era, mas era um governo onde essas forças populares, o movimento sindical, os diferentes movimentos sociais vinham ganhando mais peso. É justamente contra esse avanço dos setores populares, contra o avanço dos setores democráticos que se dá o Golpe.
O Golpe seguiu os interesses dos latifundiários, que eram contra avanços e reformas no campo, de um setor da burguesia brasileira que era contra os avanços sociais e de setores militares que de certa maneira eram a mão armada desses setores mais reacionários. Então na verdade foi um golpe que acabou com a democracia no país, atrasou o avanço do país e que durou 21 anos. Ele começa em 1964 e embora ele comece a dar sinais de crise um pouco antes, ele vai terminar e 1985. Não vamos esquecer, o Brasil só voltou a eleger um presidente em 1989.


Giro Regional: Quais foram as principais consequências econômicas e culturais que o Brasil sofreu com a tomada do poder pelos militares?
Negrão: Do ponto de vista econômico talvez o mais complicado foi que a política econômica da ditadura se baseou em algo chamado de arrocho salarial. Ou seja, você teve crescimento da economia, mas você teve um aumento brutal da pobreza, porque os salários eram comprimidos, eram arrochados, eram deliberadamente reduzidos. Então o Brasil crescia, mas a população continuava numa pobreza intensa. Era um crescimento que só fazia ampliar a concentração de renda.
Do ponto de vista cultural a ditadura foi uma tragédia, foi um atraso, com a proibição de filmes, livros, peças de teatro, novelas, foi um atraso generalizado. Todas as manifestações culturais, nas suas mais diversas possibilidades, sofreram com a censura. A própria imprensa sofreu. É importante frisar que de maneira geral, em sua mais ampla maioria, as indústrias de mídias brasileiras foram a favor do golpe, raríssimos foram os grandes veículos que foram contra. De maneira geral, a grande mídia brasileira apoiou, bancou e articulou o golpe.


Giro Regional: Por que as grandes mídias apoiaram os militares se elas também sofreriam dos efeitos da censura? Depois de sentirem na pele, elas passaram a lutar contra a ditadura?
Negrão: As mídias sofreram depois com a censura, mas a questão da mídia brasileira, desse apoio que deram aos golpistas, não se dave simplesmente por conta da censura, mas por conta de interesses econômicos. Eles apoiaram, mas chegou num momento em que ela própria acaba sofrendo algumas dessas consequências, que é a presença da censura prévia. A gente pode dizer que quem mais lutou contra a censura foram os jornalistas, não os jornais.
Hoje você pega todos os grandes veículos e todos eles se arvoram em paladinos pela luta da liberdade de imprensa, da luta contra o autoritarismo, isso é meia verdade. Aqueles que tiverem dúvida disso, é fácil achar inclusive na internet, procurem os editoriais do dia 1 de abril de 1964 e vejam como eles trataram e se manifestaram a respeito do golpe, é de puro delírio a favor.


Giro Regional: Sabe-se que muitos artistas participaram da luta pela democracia, quais foram os principais ícones desse movimento?
Negrão: Grande parte dos artistas e dos intelectuais lutou contra a ditadura, mas é importante deixar claro também que isso não foi uma unanimidade. Teve gente que se deu bem com a ditaduta. Assim como é comum a gente falar “ah, os estudantes lutavam contra a ditadura”, a gente precisa olhar com muita clareza isso, porque você teve setores dos estudantes que eram a favor, que se beneficiaram da ditadura.
Foram vários os ícones, grandes cantores como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, gente de teatro como Cacilda Becker, o pessoal do teatro de arena, do teatro oficina. Foram vários artistas e intelectuais que tiveram papel importante nessa luta de enfrentamento à ditadura, que não aceitaram calados, que na medida do possivel, enfrentaram a ditadura com o que tinham, que era a sua capacidade de produção intelectual.


Giro Regional: Qual a sua opinião sobre o golpe? Você é contra ou a favor?
Negrão: Completamente contra, porque o Golpe Militar significou um atraso muito intenso pro País. Atraso democrático, cultural e econômico. Se a gente olha do ponto de vista do interesse das maiorias, a gente vê que foi um passo atrás. O Brasil vinha consolidando um processo democrático, tinha problemas, mas vinha consolidando e o Golpe é um recuo de inúmeros passos atrás.


Giro Regional: Qual a grande diferença entre a juventude dos anos 60 para a juventude atual? Você acha que falta engajamento político?
Negrão: Eu acho que isso é um dos mitos que se cria, porque se imaginar que o conjunto da juventude estava na luta contra a ditadura é idolatrar o passado. Tinha muita gente que era engajada, que lutava contra a ditadura mas tinha muita gente a favor da ditadura e tinha muita gente que tava pouco se lixando. Eu acho que a juventude de hoje também tem seus motivos de luta, seus motivos de se organizar. Só que hoje ela não precisa lutar contra uma ditadura porque o país vive numa democracia. Eu acho que há tanta juventude engajada na melhora do avanço democrático do país quanto talvez ouvesse antes e também há tanta gente alienada, tanta gente pouco se lixando ou tanto jovem conservador, quanto também havia antes.


Giro Regional: Você consegue imaginar como seria o Brasil atualmente se não tivessemos atravessado todos esses anos de ditadura?
Negrão: É claro que isso é um exercício, que do ponto de vista científico, é uma adivinhação, mas se a gente analisa algumas perspectivas, algumas tendências que vinham se desenhando no país antes do Golpe, certamente que a gente teria hoje uma democracia mais consolidada. Nós temos uma democracia muito jovem, o Brasil voltou a eleger presidente em 1989, é muito pouco. Muitos dos nossos alunos aqui já tinham nascido. É uma democracia que avançou rapidamente, que vem se consolidando, mas talvez a gente estivesse num patamar mais consolidado desse avanço democrático.

Giro Regional
giroregional.com.br

"Nota de Repúdio - Instituto Vladimir Herzog"

DITADURA NUNCA MAIS!!!
Na foto o jornalista Vladimir Herzog, morto em outubro de 1975

O general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, em entrevista a Miriam Leitão, das Organizações Globo, disse ontem (1/3/2012) que a Comissão da Verdade, prevista em lei sancionada pela Presidência da República em Novembro de 2010, é “maniqueísta” e parcial porque seu objetivo é “promover o esclarecimento de torturas, mortes, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres”. Acha ele que, para assegurar a imparcialidade da comissão, ela também deveria investigar atos de violência cometidos por aqueles que combatiam a ditadura.



Depois de sugerir que os desaparecimentos do deputado Rubens Paiva e de Stuart Angel só sensibilizam até hoje a opinião pública porque eles pertenciam às “classes favorecidas”, o general Rocha Paiva mostra duvidar de que a presidente Dilma Rousseff tenha sido torturada na época da ditadura. E, quando Miriam Leitão lembrou que “Vladimir Herzog foi se apresentar para depor e morreu”, Rocha Paiva questiona: “E quem disse que ele foi morto pelos agentes do Estado? Nisso há controvérsias. Ninguém pode afirmar.”


Como se alguém que se apresentara para depor não estivesse sob a guarda e a responsabilidade do Estado e de seus agentes. Como se assegurar a integridade física e a própria vida de um depoente, qualquer depoente, não fosse obrigação oficial fundamental do Estado e de seus agentes, a quem ele se apresentara. Como se a Justiça do Brasil já não houvesse reconhecido oficialmente, há 33 anos, em decorrência de processo movido pela viúva Clarice Herzog e seus filhos, que Vladimir Herzog foi preso, torturado e assassinado nos porões da ditadura, por agentes do Estado.

Além de tudo isso, posteriormente, em julgamento proferido no âmbito da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, criada pela Lei nº 9.140/96, o próprio Estado brasileiro ratificou o reconhecimento dessa prisão ilegal, tortura e morte.

Ao indagar, mais adiante, “Quando é que não houve tortura no Brasil?”, o general tenta justificar em sua entrevista os martírios que foram perpetrados pela ditadura deixando entender que torturar é uma atividade legitimada e consagrada pelos usos e costumes nacionais.

General, tortura nunca foi usos e costumes, nem no Brasil nem em lugar algum. Sempre foi e é a violação do império da lei, que condena quem tortura. Tanto que a nossa Constituição Federal é taxativa ao determinar que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante” (art.5º, inciso III). E impor o respeito à lei – não violá-la – é o dever precípuo mais básico dos agentes do Estado. Esses agentes estão cobertos pelo manto institucional, portanto exercem um poder infinitamente maior que qualquer outro cidadão.

É por isso, por ser um crime cometido pelo Estado – não por cidadãos comuns, julgados pela Justiça comum – que as torturas e mortes perpetradas por agentes do Estado e sob sua bandeira são o que precisa ser investigado e exposto pela Comissão da Verdade. Não acobertado pelo Estado ou por qualquer de suas instituições.

E a imparcialidade da Comissão estará em agir à luz da Justiça e da lei ao investigar e expor os crimes cometidos pelo Estado e seus agentes – não ao talante de quem detém o poder.

Tudo isso torna claro que a manifestação do general Luiz Eduardo Rocha Paiva atenta contra o Estado Democrático de Direito, também preconizado na Constituição Federal do Brasil, que tem entre seus fundamentos “a dignidade da pessoa humana”, além da República Federativa do Brasil reger-se nas suas relações internacionais pelos princípios, entre outros, da “prevalência dos direitos humanos” (Constituição Federal, arts. 1º, III, e 4º, II).

"INSTITUTO VLADIMIR HERZOG"