"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém" Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios

"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém [...]". (Carta do Apóstolo Paulo aos cristãos. Coríntios 6:12) Tudo posso, tudo quero, mas eu devo? Quero, mas não posso. Até posso, se burlar a regra; mas eu devo? Segundo o filósofo Mário Sérgio Cortella, ética é o conjunto de valores e princípios que [todos] usamos para definir as três grandes questões da vida, que são: QUERO, DEVO, POSSO. Tem coisas que eu quero, mas não posso. Tem coisas que eu posso, mas não devo. Tem coisas que eu devo, mas não quero. Cortella complementa "Quando temos paz de espírito? Temos paz de espítito quando aquilo que queremos é o que podemos e é o que devemos." (Cortella, 2009). Imagem Toscana, Itália.















sábado, 22 de janeiro de 2011

A VEEMÊNCIA DA VIDA

Johan Huizinga


O holandês Johan Huizinga (1872-1945) é um dos mais eminentes historiadores da cultura no século 20. Homem de múltiplos interesses, nos anos 1890, quando era estudante na Universidade de Groningen, chegou a frequentar um grupo de adoradores do decadentismo. Depois se interessou pelo budismo, aprendeu sânscrito e escreveu uma tese sobre o papel do palhaço no drama indiano antigo. Quando tinha cerca de 40 anos, depois do início da Primeira Guerra Mundial, começou a publicar os livros e ensaios sobre a história cultural europeia pelos quais hoje é lembrado. Antes afastado completamente das questões políticas de seu tempo, por volta de 1930 sua crítica ao mundo moderno estendeu-se ao fascismo. Quando os alemães invadiram a Holanda, Huizinga foi preso e levado para um campo de concentração. Morreu em uma vila perto de Arnhem logo após a Liberação.
Como historiador, declarava que o principal objetivo do ofício é retratar padrões de cultura: em outras palavras, descrever pensamentos e sentimentos, e suas expressões ou materializações em obras literárias e de arte. Segundo Huizinga, o historiador descobre padrões de cultura ao estudar “temas, figuras, motivos, símbolos, estilos e sentimentos”. Foi o que ele fez em seus estudos mais importantes, sobretudo em “O Outono da Idade Média”, livro que recentemente ganhou uma edição caprichada da Cosac Naify, do qual o “Vale a pena ler de novo” desta semana traz um trecho. Leia livros!
Quando o mundo era cinco séculos mais jovem, tudo o que acontecia na vida era dotado de contornos bem mais nítidos que os de hoje. Entre a dor e a alegria, o infortúnio e a felicidade, a distância parecia maior do que para nós; tudo que o homem vivia ainda possuía aquele teor imediato e absoluto que no mundo de hoje só se observa nos arroubos infantis de felicidade e dor. Cada momento da vida, cada feito era cercado de formas enfáticas e expressivas, realçado pela solenidade de um estilo de vida rígido e perene. Os grandes fatos da vida – o nascimento, o matrimônio, a morte – eram envoltos, por obra dos sacramentos, no esplendor do mistério divino. Mas também os menores – uma viagem, uma tarefa, uma visita – eram acompanhados de mil bênçãos, cerimônias, ditos e convenções.
Contra as calamidades e as privações, havia menos lenitivos do que agora; e elas eram mais opressivas e cruéis. O contraste entre a doença e a saúde era maior; o frio severo e a escuridão medonha do inverno eram males mais pungentes. Honra e riqueza eram desfrutadas com mais intensidade, mais avidez, pois destacavam-se da pobreza e da degradação circundantes com maior veemência do que hoje. Um manto de pele, um fogo brilhante na lareira, bebidas, pilhéria e uma cama macia ainda conservavam aquele alto apreço pelos prazeres da vida, que o romance inglês soube perpetuar vividamente.
E todos os elementos da vida mostravam-se abertamente, com alarde e crueldade. Os leprosos chacoalhavam suas matracas e saíam em procissão, os mendigos lamuriavam-se nas igrejas e expunham suas deformidades. Cada estamento, cada ordem, cada ofício podia ser reconhecido por seus trajes. Os grandes senhores, venerados e invejados, jamais se deslocavam sem um aparato pomposo de armas e librés. Julgamentos, transações comerciais, casamentos e enterros, tudo se anunciava sonoramente com procissões, gritos, lamentos e música. O amante levava o símbolo de sua dama;os membros de uma irmandade, seu emblema; um vassalo, as cores e os brasões de seu senhor.
Também entre a cidade e o campo imperava um nítido contraste. A cidade não se estendia, à maneira das nossas, em subúrbios desmazelados de fábricas enfadonhas e casas humildes. Ao contrário, fechava-se em seus muros, era compacta e eriçada com numerosas torres. E por mais altas ou maciças que fossem as casas de pedra dos nobres ou dos comerciantes, o vulto altaneiro das igrejas dominava a silhueta da cidade.
Assim como o contraste entre o verão e o inverno era mais severo do que para nós, também o era o contraste entre a luz e a escuridão, o silêncio e o ruído. A cidade moderna praticamente desconhece a escuridão e o silêncio profundos, assim como o efeito de um lume solitário ou de uma voz distante.
O contraste contínuo e as formas simbólicas com as quais tudo se imprimia na alma conferiam à vida cotidiana uma excitação e um poder de sugestão que se manifestavam nos ânimos instáveis de emotividade tosca, crueldade extrema e ternura íntima entre os quais se movia a vida urbana medieval.

Fonte: Jornal Bom Dia. Vale a pena ler de novo. 22.01.2011.

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