"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém" Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios

"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém [...]". (Carta do Apóstolo Paulo aos cristãos. Coríntios 6:12) Tudo posso, tudo quero, mas eu devo? Quero, mas não posso. Até posso, se burlar a regra; mas eu devo? Segundo o filósofo Mário Sérgio Cortella, ética é o conjunto de valores e princípios que [todos] usamos para definir as três grandes questões da vida, que são: QUERO, DEVO, POSSO. Tem coisas que eu quero, mas não posso. Tem coisas que eu posso, mas não devo. Tem coisas que eu devo, mas não quero. Cortella complementa "Quando temos paz de espírito? Temos paz de espítito quando aquilo que queremos é o que podemos e é o que devemos." (Cortella, 2009). Imagem Toscana, Itália.















sexta-feira, 27 de maio de 2011

Santa Igreja Católica Apostólica Romana


Batismo do rei Clóvis em 496.
Por Marilia Carrenho Camillo Coltri
Em algumas situações, após uma aula de 100 minutos sobre Idade Média, Alto Clero, Baixo Clero, Tribunal do Santo Ofício, Pecado da Usura, Santa Inquisição, Venda de Indulgências, escravidão e catequese, etc; meus alunos me olham com um misto de indignação e complacência  e me perguntam curiosos: "Professora, que religião a senhora é?" Encabulada digo: "Católica, não praticante. Não fiz primeira comunhão, catecismo, crisma, isto é, fui cristianizada aos moldes dos povos bárbaros do Império Carolíngio, no século IV (1) e, tal como o rei franco Clóvis (2), porém quando criança, fui apenas batizada, pois minha mãe era a mais devota. Mas foi somente isso! Casei-me na Igreja Católica porque cumpri a penitência de um cursinho de meio sábado intitulado "Como formar uma família cristã". Ah! paguei também uma taxa de R$ 200,00 na época. Foi a permissão que recebi da Santa Igreja Católica Apostólica Romana de receber a benção de um padre que atrasou 1 hora e meia para a cerimônia.
Minha educação foi laica, tenho problemas com a Igreja Católica. Para completar minha formação secularizada fiz Ciências Sociais na PUC de São Paulo que, apesar de ser uma universidade católica, fazia sérias críticas ao poder político, principalmente no regime militar. Tínhamos à frente da pontifícia D. Paulo Evaristo Arns, que sabíamos defendia uma posição, em alguns momentos, ao reverso da própria santa igreja. A igreja apoiou o golpe mas depois rompeu com o regime. Ele usava saias, tal como disse Médici. A invasão da PUC foi um dos três momentos mais difíceis que Arns enfrentou quando então cardeal de São Paulo. Os outros dois foram o assassinato do Vladmir Herzog e do Guilherme Vannucchi Leme, na rua Tutóia, ponto de encontro dos torturadores na época. O que o salvou foi o protocolo existente entre o governo brasileiro e o vaticano, caso contrário ele teria ido para o pau de arara, também.
Minha experiência no terceiro setor fez nascer em mim a consciência crítica da diferença existente entre o assistencialismo e sustentabilidade. Esse meu afastamento da "santa" igreja confunde minhas crenças até hoje. Tenho dificuldades em trabalhar a minha fé. Creio, descrendo. A Teoria da Libertação e a "expulsão" de Leonardo Boff nos anos 80, seu maior expoente, me fizeram refletir. O maior pecado que sofri foi uma evangelização desgarrada da vida concreta. Gosto de ler a Bíblia como um grande livro de história mas procuro trazer essa leitura para a realidade dos fatos. Entrego pouca coisa prá Deus, aliás, absolutamente aquilo que não dou conta no plano material.
Admiro, sem sombra de dúvidas, a trajetória desse Anjo Bom. Pessoas como ela conseguem ver a injustiça não como sendo obra de Deus, mas sim dos homens e não rezam apenas, agem. Porém, são minoria nesse mundo clerical. Esse é um dos grandes motivos da Igreja Católica ter perdido tantos fiéis, a evangelização vinculada a um conformismo miserável, que prega a salvação somente no reino dos céus. As igrejas alternativas vinculam-se ao fato de que o cristão pode ser feliz nesse mundo terreno, elas são calcadas na prosperidade. Não é a miséria que eleva ao reino dos céus. A vida próspera deixou de ser pecado e o povo já sabe disso. Somente a igreja não percebeu.

(1) Primeira fase da da história da Igreja medieval, também conhecida como Império Carolíngio. Ao longo do século IV, os imperadores romanos se aproximaram do bispo de Roma com o objetivo de manter sua autoridade sobre a população que, diante da crise, passava a adotar o cristianismo. Essa época foi marcada pela atuação de numerosos missionários que cruzavam a Europa para atrair novos fiéis para o catolicismo. Copyright Editora Poliedro 2011.

(2) Em 496, Clóvis (que reinou do ano 481 ao 511) converteu-se ao cristianismo e tornou-se um importante aliado do poder papal na cristianização de territórios dominados por diferentes povos bárbaros. Copyright Editora Poliedro 2011.

ANJOS BONS

Em maio de 1939, irmã Dulce inaugurou o Colégio Santo Antônio, voltado para os operários e seus filhos.

Escrito por Roberto Malvezzi (Gogó)
26-Mai-2011


O povo baiano já definiu uma forma carinhosa de se dirigir a Ir. Dulce: Anjo Bom.

É bom lembrarmos que aqui é a Bahia de todos os Santos, também de todos os demônios.

Dulce foi uma pessoa mais contraditória do que parece à primeira vista. Dedicou-se de corpo e alma, com todas as suas forças, a dar alguma dignidade aos que viviam e vivem na miséria em Salvador. Isso mesmo, a belíssima cidade ainda guarda pobreza em quantidade, mesmo que já não exista mais Alagados e tantas outras paisagens infames.

Nunca se preocupou de onde vinha o dinheiro para seu trabalho. Se necessário, pedia aos donos do poder. Por isso, eles fizeram questão de aproximar-se dela, para instrumentalizar sua imagem, mesmo que governassem a Bahia com mão de ferro e produzissem miséria.

Aparentemente apolítica, tornou-se um ícone da direita baiana e também da Igreja conservadora. Afinal, para muitos, é assim que um cristão deve servir aos pobres. Mas, ela era mais esperta do que os seus instrumentalizadores imaginavam. Quando necessário, foi rebelde, ocupando casas, levando doentes para ambientes onde não eram desejados, criando problemas dentro da congregação. Era acusada de preferir mais os pobres e a rua que sua comunidade.

A Igreja teve outros anjos bons. D. Hélder sonhou com um milênio sem miséria. D. Luciano, Mauro Morelli e outros, seguindo o sonho de D. Hélder, criaram o "Mutirão pela Superação da Fome e da Miséria", com a CNBB.

No campo a luta veio de forma organizada, em Pastorais Sociais, como a da Terra, dos Pescadores, além das urbanas, como a Operária, do Menor, do Migrante etc. A Pastoral da Criança salvou e salva milhões de crianças nesse país e no resto do mundo.

Aqui no sertão estamos conseguindo vencer a sede, a fome, a migração e tantas mazelas que afligiram gerações e gerações de nordestinos com a simples captação da água de chuva. As Pastorais são parte integrante desse esforço hercúleo.

Mas, falo também dos anjos sem religião. Por mais de trinta anos tivemos na CPT da Bahia Marta Pinto dos Anjos. Advogada, sem convicção religiosa. Quando íamos rezar um pai-nosso, segurava nossas mãos, abaixava a cabeça e silenciava. Conheci poucas pessoas tão dedicadas aos pobres do campo na Bahia como Marta. Aposentou-se, em seis meses faleceu vítima de câncer.

O que sempre chamou a atenção em Marta é que não precisa ser cristão nem esperar pela vida eterna para se fazer uma verdadeira dedicação pela justiça e pela superação da miséria. Assim, existem milhares e milhões. Eles e elas estão nos movimentos sociais, mesmo dentro de certos governos.

Ir. Dulce é sim um anjo bom. Onde está uma pessoa em necessidade, ali está um universo.

Entretanto, pessoas como ela, assim como Teresa de Calcutá, surgem onde a miséria é abundante. E a miséria sobra onde a injustiça superabunda. Não vamos encontrar essas santas em Berlim ou Copenhague. Lá existe saúde pública que funciona, educação, enfim, uma política social onde são desnecessárias santas como elas. Portanto, elas também são frutos de um contexto perverso.

Mas, a santidade do Anjo Bom é verdadeira, porque sua generosidade foi verdadeira.

O pior não é a opção assistencial - tantas vezes necessária. É a indiferença.

Roberto Malvezzi é membro da Equipe Terra, Água e Meio Ambiente do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano). Correio da Cidadania 27 maio 2011.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Principais períodos da história da Filosofia

A Filosofia na História
Como todas as outras criações e instituições humanas, a Filosofia está na História e tem uma história. Está na História: a Filosofia manifesta e exprime os problemas e as questões que, em cada época de uma sociedade, os homens colocam para si mesmos, diante do que é novo e ainda não foi compreendido. A Filosofia procura enfrentar essa novidade, oferecendo caminhos, respostas e, sobretudo, propondo novas perguntas, num diálogo permanente com a sociedade e a cultura de seu tempo, do qual ela faz parte. Tem uma história: as respostas, as soluções e as novas perguntas que os filósofos de uma época oferecem tornam-se saberes adquiridos que outros filósofos prosseguem ou, freqüentemente, tornam-se novos problemas que outros filósofos tentam resolver, seja aproveitando o passado filosófico, seja criticando-o e refutando-o. Além disso, as transformações nos modos de conhecer podem ampliar os campos de investigação da Filosofia, fazendo surgir novas disciplinas filosóficas, como também podem diminuir esses campos, porque alguns de seus conhecimentos podem desligar-se dela e formar disciplinas separadas. Assim, por exemplo, a Filosofia teve seu campo de atividade aumentado quando, no século XVIII, surge a filosofia da arte ou estética; no século XIX, a filosofia da história; no século XX, a filosofia das ciências ou epistemologia, e a filosofia da linguagem. Por outro lado, o campo da Filosofia diminuiu quando as ciências particulares que dela faziam parte foram-se desligando para constituir suas próprias esferas de investigação. É o que acontece, por exemplo, no século XVIII, quando se desligam da Filosofia a biologia, a física e a química; e, no século XX, as chamadas ciências humanas (psicologia, antropologia, história). Pelo fato de estar na História e ter uma história, a Filosofia costuma ser apresentada em grandes períodos que acompanham, às vezes de maneira mais próxima, às vezes de maneira mais distante, os períodos em que os historiadores dividem a História da sociedade ocidental.

Os principais períodos da Filosofia

Filosofia antiga (do século VI a.C. ao século VI d.C.)
Compreende os quatro grandes períodos da Filosofia greco-romana, indo dos pré-socráticos aos grandes sistemas do período helenístico, mencionados no capítulo anterior.

Filosofia patrística (do século I ao século VII)
Inicia-se com as Epístolas de São Paulo e o Evangelho de São João e termina no século VIII, quando teve início a Filosofia medieval. A patrística resultou do esforço feito pelos dois apóstolos intelectuais (Paulo e João) e pelos primeiros Padres da Igreja para conciliar a nova religião - o Cristianismo - com o pensamento filosófico dos gregos e romanos, pois somente com tal conciliação seria possível convencer os pagãos da nova verdade e convertê-los a ela. A Filosofia patrística liga-se, portanto, à tarefa religiosa da evangelização e à defesa da religião cristã contra os ataques teóricos e morais que recebia dos antigos. Divide-se em patrística grega (ligada à Igreja de Bizâncio) e patrística latina (ligada à Igreja de Roma) e seus nomes mais importantes foram: Justino, Tertuliano, Atenágoras, Orígenes, Clemente, Eusébio, Santo Ambrósio, São Gregório Nazianzo, São João Crisóstomo, Isidoro de Sevilha, Santo Agostinho, Beda e Boécio. A patrística foi obrigada a introduzir ideias desconhecidas para os filósofos greco-romanos: a ideia de criação do mundo, de pecado original, de Deus como trindade una, de encarnação e morte de Deus, de juízo final ou de fim dos tempos e ressurreição dos mortos, etc. Precisou também explicar como o mal pode existir no mundo, já que tudo foi criado por Deus, que é pura perfeição e bondade. Introduziu, sobretudo com Santo Agostinho e Boécio, a ideia de “homem interior”, isto é, da consciência moral e do livre-arbítrio, pelo qual o homem se torna responsável pela existência do mal no mundo. Para impor as ideias cristãs, os Padres da Igreja as transformaram em verdades reveladas por Deus (através da Bíblia e dos santos) que, por serem decretos divinos, seriam dogmas, isto é, irrefutáveis e inquestionáveis. Com isso, surge uma distinção, desconhecida pelos antigos, entre verdades reveladas ou da fé e verdades da razão ou humanas, isto é, entre verdades sobrenaturais e verdades naturais, as primeiras introduzindo a noção de conhecimento recebido por uma graça divina, superior ao simples conhecimento racional. Dessa forma, o grande tema de toda a Filosofia patrística é o da possibilidade de conciliar razão e fé, e, a esse respeito, havia três posições principais:

1. Os que julgavam fé e razão irreconciliáveis e a fé superior à razão (diziam eles: “Creio porque absurdo”).
2. Os que julgavam fé e razão conciliáveis, mas subordinavam a razão à fé (diziam eles: “Creio para compreender”).
3. Os que julgavam razão e fé irreconciliáveis, mas afirmavam que cada uma delas tem seu campo próprio de conhecimento e não devem misturar-se (a razão se refere a tudo o que concerne à vida temporal dos homens no mundo; a fé, a tudo o que se refere à salvação da alma e à vida eterna futura).

Filosofia medieval (do século VIII ao século XIV)
Abrange pensadores europeus, árabes e judeus. É o período em que a Igreja Romana dominava a Europa, ungia e coroava reis, organizava Cruzadas à Terra Santa e criava, à volta das catedrais, as primeiras universidades ou escolas. E, a partir do século XII, por ter sido ensinada nas escolas, a Filosofia medieval também é conhecida com o nome de Escolástica.
A Filosofia medieval teve como influências principais Platão e Aristóteles, embora o Platão que os medievais conhecessem fosse o neoplatônico (vindo da Filosofia de Plotino, do século VI d.C.), e o Aristóteles que conhecessem fosse aquele conservado e traduzido pelos árabes, particularmente Avicena e Averróis. Conservando e discutindo os mesmos problemas que a patrística, a Filosofia medieval acrescentou outros - particularmente um, conhecido com o nome de Problema dos Universais - e, além de Platão e Aristóteles, sofreu uma grande influência das ideias de Santo Agostinho. Durante esse período surge propriamente a Filosofia cristã, que é, na verdade, a teologia. Um de seus temas mais constantes são as provas da existência de Deus e da alma, isto é, demonstrações racionais da existência do infinito criador e do espírito humano imortal.
A diferença e separação entre infinito (Deus) e finito (homem, mundo), a diferença entre razão e fé (a primeira deve subordinar-se à segunda), a diferença e separação entre corpo (matéria) e alma (espírito), O Universo como uma hierarquia de seres, onde os superiores dominam e governam os inferiores (Deus, arcanjos, anjos, alma, corpo, animais, vegetais, minerais), a subordinação do poder temporal dos reis e barões ao poder espiritual de papas e bispos: eis os grandes temas da Filosofia medieval.
Outra característica marcante da Escolástica foi o método por ela inventado para expor as ideias filosóficas, conhecida como disputa: apresentava-se uma tese e esta devia ser ou refutada ou defendida por argumentos tirados da Bíblia, de Aristóteles, de Platão ou de outros Padres da Igreja.
Assim, uma ideia era considerada uma tese verdadeira ou falsa dependendo da força e da qualidade dos argumentos encontrados nos vários autores. Por causa desse método de disputa - teses, refutações, defesas, respostas, conclusões baseadas em escritos de outros autores -, costuma-se dizer que, na Idade Média, o pensamento estava subordinado ao princípio da autoridade, isto é, uma ideia é considerada verdadeira se for baseada nos argumentos de uma autoridade reconhecida (Bíblia, Platão, Aristóteles, um papa, um santo).
Os teólogos medievais mais importantes foram: Abelardo, Duns Scoto, Escoto Erígena, Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno, Guilherme de Ockham, Roger Bacon, São Boaventura. Do lado árabe: Avicena, Averróis, Alfarabi e Algazáli. Do lado judaico: Maimônides, Nahmanides, Yeudah bem Levi.

Filosofia da Renascença (do século XIV ao século XVI)
É marcada pela descoberta de obras de Platão desconhecidas na Idade Média, de novas obras de Aristóteles, bem como pela recuperação das obras dos grandes autores e artistas gregos e romanos.
São três as grandes linhas de pensamento que predominavam na Renascença:
1. Aquela proveniente de Platão, do neoplatonismo e da descoberta dos livros do Hermetismo; nela se destacava a ideia da Natureza como um grande ser vivo; o homem faz parte da Natureza como um microcosmo (como espelho do Universo inteiro) e pode agir sobre ela através da magia natural, da alquimia e da astrologia, pois o mundo é constituído por vínculos e ligações secretas (a simpatia) entre as coisas; o homem pode, também, conhecer esses vínculos e criar outros, como um deus.
2. Aquela originária dos pensadores florentinos, que valorizava a vida ativa, isto é, a política, e defendia os ideais republicanos das cidades italianas contra o Império Romano-Germânico, isto é, contra o poderio dos papas e dos imperadores. Na defesa do ideal republicano, os escritores resgataram autores políticos da Antigüidade, historiadores e juristas, e propuseram a “imitação dos antigos” ou o renascimento da liberdade política, anterior ao surgimento do império eclesiástico.
3. Aquela que propunha o ideal do homem como artífice de seu próprio destino, tanto através dos conhecimentos (astrologia, magia, alquimia), quanto através da política (o ideal republicano), das técnicas (medicina, arquitetura, engenharia, navegação) e das artes (pintura, escultura, literatura, teatro).
A efervescência teórica e prática foi alimentada com as grandes descobertas marítimas, que garantiam ao homem o conhecimento de novos mares, novos céus, novas terras e novas gentes, permitindo-lhe ter uma visão crítica de sua própria sociedade. Essa efervescência cultural e política levou a críticas profundas à Igreja Romana, culminando na Reforma Protestante, baseada na ideia de liberdade de crença e de pensamento. À Reforma a Igreja respondeu com a Contra-Reforma e com o recrudescimento do poder da Inquisição.
Os nomes mais importantes desse período são: Dante, Marcílio Ficino, Giordano Bruno, Campannella, Maquiavel, Montaigne, Erasmo, Tomás Morus, Jean Bodin, Kepler e Nicolau de Cusa.

Filosofia moderna (do século XVII a meados do século XVIII)
Esse período, conhecido como o Grande Racionalismo Clássico, é marcado por três grandes mudanças intelectuais:
1. Aquela conhecida como o “surgimento do sujeito do conhecimento”, isto é, a Filosofia, em lugar de começar seu trabalho conhecendo a Natureza e Deus, para depois referir-se ao homem, começa indagando qual é a capacidade do intelecto humano para conhecer e demonstrar a verdade dos conhecimentos. Em outras palavras, a Filosofia começa pela reflexão, isto é, pela volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer sua capacidade de conhecer.
O ponto de partida é o sujeito do conhecimento como consciência de si reflexiva, isto é, como consciência que conhece sua capacidade de conhecer. O sujeito do conhecimento é um intelecto no interior de uma alma, cuja natureza ou substância é completamente diferente da natureza ou substância de seu corpo e dos demais corpos exteriores.
Por isso, a segunda pergunta da Filosofia, depois de respondida a pergunta sobre a capacidade de conhecer, é: Como o espírito ou intelecto pode conhecer o que é diferente dele? Como pode conhecer os corpos da Natureza?
2. A resposta à pergunta acima constituiu a segunda grande mudança intelectual dos modernos, e essa mudança diz respeito ao objeto do conhecimento. Para os modernos, as coisas exteriores (a Natureza, a vida social e política) podem ser conhecidas desde que sejam consideradas representações, ou seja, ideias ou conceitos formulados pelo sujeito do conhecimento.
Isso significa, por um lado, que tudo o que pode ser conhecido deve poder ser transformado num conceito ou numa ideia clara e distinta, demonstrável e necessária, formulada pelo intelecto; e, por outro lado, que a Natureza e a sociedade ou política podem ser inteiramente conhecidas pelo sujeito, porque elas são inteligíveis em si mesmas, isto é, são racionais em si mesmas e propensas a serem representadas pelas ideias do sujeito do conhecimento.
3. Essa concepção da realidade como intrinsecamente racional e que pode ser plenamente captada pelas ideias e conceitos preparou a terceira grande mudança intelectual moderna. A realidade, a partir de Galileu, é concebida como um sistema racional de mecanismos físicos, cuja estrutura profunda e invisível é matemática. O “livro do mundo”, diz Galileu, “está escrito em caracteres matemáticos.”
A realidade, concebida como sistema racional de mecanismos físico-matemáticos, deu origem à ciência clássica, isto é, à mecânica, por meio da qual são descritos, explicados e interpretados todos os fatos da realidade: astronomia, física, química, psicologia, política, artes são disciplinas cujo conhecimento é de tipo mecânico, ou seja, de relações necessárias de causa e efeito entre um agente e um paciente.
A realidade é um sistema de causalidades racionais rigorosas que podem ser conhecidas e transformadas pelo homem. Nasce a ideia de experimentação e de tecnologia (conhecimento teórico que orienta as intervenções práticas) e o ideal de que o homem poderá dominar tecnicamente a Natureza e a sociedade.
Predomina, assim, nesse período, a ideia de conquista científica e técnica de toda a realidade, a partir da explicação mecânica e matemática do Universo e da invenção das máquinas, graças às experiências físicas e químicas.
Existe também a convicção de que a razão humana é capaz de conhecer a origem, as causas e os efeitos das paixões e das emoções e, pela vontade orientada pelo intelecto, é capaz de governá-las e dominá-las, de sorte que a vida ética pode ser plenamente racional.
A mesma convicção orienta o racionalismo político, isto é, a ideia de que a razão é capaz de definir para cada sociedade qual o melhor regime político e como mantê-lo racionalmente.
Nunca mais, na história da Filosofia, haverá igual confiança nas capacidades e nos poderes da razão humana como houve no Grande Racionalismo Clássico. Os principais pensadores desse período foram: Francis Bacon, Descartes, Galileu, Pascal, Hobbes, Espinosa, Leibniz, Malebranche, Locke, Berkeley, Newton, Gassendi.

Filosofia da Ilustração ou Iluminismo (meados do século XVIII ao começo do século XIX)
Esse período também crê nos poderes da razão, chamada de As Luzes (por isso, o nome Iluminismo). O Iluminismo afirma que:
● pela razão, o homem pode conquistar a liberdade e a felicidade social e política (a Filosofia da Ilustração foi decisiva para as ideias da Revolução Francesa de 1789);
● a razão é capaz de evolução e progresso, e o homem é um ser perfectível. A perfectibilidade consiste em liberar-se dos preconceitos religiosos, sociais e morais, em libertar-se da superstição e do medo, graças as conhecimento, às ciências, às artes e à moral;
● o aperfeiçoamento da razão se realiza pelo progresso das civilizações, que vão das mais atrasadas (também chamadas de “primitivas” ou “selvagens”) às mais adiantadas e perfeitas (as da Europa Ocidental);
● há diferença entre Natureza e civilização, isto é, a Natureza é o reino das relações necessárias de causa e efeito ou das leis naturais universais e imutáveis, enquanto a civilização é o reino da liberdade e da finalidade proposta pela vontade livre dos próprios homens, em seu aperfeiçoamento moral, técnico e político.
Nesse período há grande interesse pelas ciências que se relacionam com a ideia de evolução e, por isso, a biologia terá um lugar central no pensamento ilustrado, pertencendo ao campo da filosofia da vida. Há igualmente grande interesse e preocupação com as artes, na medida em que elas são as expressões por excelência do grau de progresso de uma civilização.
Data também desse período o interesse pela compreensão das bases econômicas da vida social e política, surgindo uma reflexão sobre a origem e a forma das riquezas das nações, com uma controvérsia sobre a importância maior ou menor da agricultura e do comércio, controvérsia que se exprime em duas correntes do pensamento econômico: a corrente fisiocrata (a agricultura é a fonte principal das riquezas) e a mercantilista (o comércio é a fonte principal da riqueza das nações).
Os principais pensadores do período foram: Hume, Voltaire, D’Alembert, Diderot, Rousseau, Kant, Fichte e Schelling (embora este último costume ser colocado como filósofo do Romantismo).

Filosofia contemporânea
Abrange o pensamento filosófico que vai de meados do século XIX e chega aos nossos dias. Esse período, por ser o mais próximo de nós, parece ser o mais complexo e o mais difícil de definir, pois as diferenças entre as várias filosofias ou posições filosóficas nos parecem muito grandes porque as estamos vendo surgir diante de nós.
Para facilitar uma visão mais geral do período, faremos, no próximo capítulo, uma contraposição entre as principais ideias do século XIX e as principais correntes de pensamento do século XX.
CHAUÍ, Marilena. Principais períodos da história da Filosofia in Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.