"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém" Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios

"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém [...]". (Carta do Apóstolo Paulo aos cristãos. Coríntios 6:12) Tudo posso, tudo quero, mas eu devo? Quero, mas não posso. Até posso, se burlar a regra; mas eu devo? Segundo o filósofo Mário Sérgio Cortella, ética é o conjunto de valores e princípios que [todos] usamos para definir as três grandes questões da vida, que são: QUERO, DEVO, POSSO. Tem coisas que eu quero, mas não posso. Tem coisas que eu posso, mas não devo. Tem coisas que eu devo, mas não quero. Cortella complementa "Quando temos paz de espírito? Temos paz de espítito quando aquilo que queremos é o que podemos e é o que devemos." (Cortella, 2009). Imagem Toscana, Itália.















sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Edgar Morin, a dialogia de um Sapiens-demens





Edgard de Assis Carvalho



Adentrar nas cavernas do homem, nos insondáveis e inesperados caminhos da alma parece ter sido a energia que impulsionou o pensamento de Edgar Morin a incursionar pelos labirintos da complexidade, um trabalho das e sobre as contradições sociais, culturais, políticas, subjetivas que caracterizam o mundo e a vida. Lembremos, de antemão  que "[...] em meados do século XIX, a humanidade levou um choque. Um cientísta inglês, geólogo e naturalista, ameaçou nosso lugar no pedestal dos seres vivos. Charles Darwin colocou-nos na incômoda companhia de todos os outros animais. Afirmou que todos somos frutos de uma mesma evolução biológica, assemelhando-nos a nossos parentes primatas. (Guerriero, 2008). No século XX fora a vez de Sigmund Freud provocar uma mudança na noção de 'pessoa', acrescentando à dimensão racional uma ligação profunda com forças irracionais, o inconsciente. Freud (1856-1939) desmistificou - com categoria - a autonomia da razão, revelando a medida em que o homem é levado por seu[s] instinto[s], pelo impulso erótico e por seu medo da morte. (PADILHA, 2006) Antes dele, o filósofo Arthur Schopenhauer já havia indicado que o ser é guiado não pela razão, mas pela vontade, descrita como uma força 'cega e irracional' que o anima. E, já próximo do século XXI, o pensador francês Edgar Morin propõe que o humano seja pensado além de sua dimensão racional, mas também em termos afetivos, emocionais, sensíveis, mesmo loucos - ao lado do Homo sapiens aparece o Homo demens. Trata-se de um movimento dialógico, hologramático e recursivo empreendido sobre o sistema-mundo que permite entrever o movimento das partes sobre o todo e do todo sobre as partes.

Há ideias nucleares em toda a obra. A mais central é a da unidualidade do homem, um ser físico e metafísico, natural e meta-natural, cultural e metacultural que se estabeleceu no cosmo há cerca de 130 mil anos e que possibilitou a um pequeno bípede, com um cérebro muito assemelhado ao de um chimpanzé, criar uma cognição cultural que o afastou da ordem estritamente biológica, caracterizada pela universalidade dos instintos. “Surgiu bem cedo o paradigma de conquista no processo de hominização. Saiu da África de onde irrompeu como “homo erectus”, há sete milhões de anos, pôs-se a conquistar o espaço, começando pela Eurásia, passando pela Ásia, América e terminando pela Oceania. Com o crescimento de ser crânio, evoluiu para “homo habilis”, inventando, por volta de 2,4 milhões de ano atrás, o instrumento que lhe permitiu alargar ainda mais sua capacidade de conquista. [...] Praticamente tudo está sob o signo de conquista. Conquistar a Terra inteira, os oceanos, as montanhas mais inacessíveis e os recantos mais inóspitos.” (BOFF apud LORENZO, 2003). No tempo, essa singularidade acabou por fazer com que a cultura fosse entendida como algo apartado da natureza, ainda que mediações, como a proibição do incesto, o trabalho, a linguagem, procurassem estabelecer a passagem das compulsões biológicas às diversidades criativas propiciadas pelo modelo cultural universal.

Entender o homem como um vivente cosmo-psico-bio-antropossocial implica devolvê-lo ao império da natureza, sem retirá-lo da república da cultura, descentrá-lo de sua superioridade, para reinseri-lo na diáspora cósmica universal.
Por isso, sua autonomia de ser-sujeito deve ser dissecada nos fundamentos da physís e do bios. Falar em sujeito autônomo implica reconhecer sua auto-organizarão, produto da própria organização biopsíquica. Implica, igualmente, definir o homem como um ser totalmente biológico e totalmente cultural. Diante dessa dupla articulação, é forçoso reconhecer que o Sapiens-demens é capaz de edificar noologias que circundam a vida das ideias, do espírito e da própria sociedade. Mesmo assim, a animalidade continua a ser a marca fundamental de qualquer indivíduo vivo, seja ele uma bactéria, um rinoceronte, uma ameba, ou um Homo Sapiens Sapiens. Qualquer indivíduo é sujeito na medida em que faz referência a si, e a não-si, reorganiza o ecossistema, produz autopoiesis, num movimento organizatório recursivo em que causas e efeitos interagem mutuamente, impulsionando o sistema para outras direções. Essa auto-eco-organização do sistema vivo nutre-se de acasos, tensões, contradições, erros, que o reordenam de modo mais complexo, como se a relação ordem-desordem-reorganização, cercada de antagonismos, complementaridades e concorrências estabelecesse uma dispersão em espiral na configuração do todo.


Embora a formulação dos pressupostos da epistemologia complexa só viesse a se sistematizar no pensamento edgar moriniano a partir dos anos 1960, eles já se encontram cimentados nos trabalhos da década anterior, com as desavenças da morte, a magia do cinema, as epifanias do star-system, que põem a nua desordem sapitental originária. Nossas personalidades não vivem nunca numa democracia plena. Submetem-se a forças tirânicas incontidas, a pulsões desenfreadas, que lutam por se tornar dominantes e atuantes, para caotizarem o ser-sujeito ou para imprimir-lhe novas reorganizações. Nesse equilíbrio/desequilíbrio entre ordem/desordem é que se tecem todas as projeções-identificações que constituem o mundo, a natureza e a matéria, uma rede na qual o real-em-si não dá mais conta da realidade, e isso porque real/virtual, real/mágico, real/imaginário impregam a totalidade das relações bioculturais.

"A ideia que se possa definir homo, dando-lhe a qualidade de sapiens, isto é, de um ser razoável e sábio, é uma ideia pouco razoável e pouco sábia. Homo é também demens: manifesta uma afetividade extrema, convulsiva, com paixões, cóleras, gritos, mudanças brutais de humor; traz em si uma fonte permanente de delírio; crê na virtude de sacrifícios sangrentos; dá corpo, existência, poder a mitos e deuses da sua imaginação. Há no ser humano um salão permanente de Ubris, a desmesura dos Gregos. A loucura humana é fonte de ódio, crueldade, barbárie, cegueira. Mas sem as desordens da afetividade e as irrupções do imaginário, sem a loucura do impossível, não existiria entusiasmo, criação, invenção, amor, poesia. Do mesmo modo, o ser humano é um animal não só insuficiente em razão mas também dotado de sem-razão. Todavia, temos necessidade de controlar o Homo Demens para exercer um pensamento racional, argumentado, crítico, complexo. Temos necessidade de inibir, em nós, o que demens tem de mortífero, mesquinho, imbecil, perverso, erótico, transgressor. Temos necessidade de sabedoria, que nos pede prudência, temperança, cortesia, desprendimento. Prudência, sim; mas não será a prudência a esterilizar as nossas vidas ao evitar o risco a todo o preço? Temperança, sim, mas será necessário evitar a experiência da «consumação» e do êxtase? Desprendimento, sim, mas será necessário renunciar aos laços da amizade e do amor?
O mundo em que vivemos é, talvez, um mundo de aparências, a espuma de uma realidade mais profunda que escapa ao tempo, ao espaço, aos nossos sentidos e ao nosso entendimento. Mas o nosso mundo da separação, da dispersão, da finitude, é também o da atração, do encontro, da exaltação. Estamos completamente imersos neste mundo que é o dos nossos sofrimentos, das nossas felicidades e dos nossos amores, das nossas ausências, das nossas carências. Não sentir é evitar o sofrimento mas também o regozijo. Quanto mais aptos estamos para a felicidade mais aptos estamos para a infelicidade. O Tao-tö-Kung diz precisamente: «a infelicidade caminha de braço dado com a felicidade, a felicidade deita-se aos pés da infelicidade.»
Estamos condenados ao paradoxo de conservar em nós, simultaneamente, a consciência da vacuidade do nosso mundo e a da plenitude que nos pode trazer a vida, quando quiser ou puder. Se a sabedoria nos pede para nos desprendermos do mundo da vida, será ela verdadeiramente sábia? Se aspiramos à plenitude do amor, seremos nós verdadeiramente loucos?
A partir dos anos 1970, a antropologia fundamental de Edgar Morin passará a ter contornos mais claros, no sentido de modelizar a complexidade organizacional do fenômeno humano. Se algum fundamento deve ser buscado nesse macroobjetivo, ele deve estar situado numa profunda insatisfação com o conhecimento disjuntor, produto do grande paradigma do Ocidente, simplificatório, que, além de dualizar razão/imaginação, sujeito/objeto, liberdade/determinismo, sensível/inteligível, pensamento selvagem/pensamento domesticado, separa, hierarquiza, distingue, degenera o saber numa concepção mutilante. Esse paradigma, uma espécie de cânone, mindscape, constituído por princípios ocultos que comandam a ciência e a própria subjetividade, tornou-se hegemônico, determinista, hiperespecializando os diversos campos cognitivos em compartimentos não-comunicantes. Muitas vezes já foi reiterado o significado etimológico da palavra complexo como aquilo que se tece em conjunto, que reassocia o que está dissociado, que comunica o que está incomunicável. Essa complexidade não é algo novo, identificado com o nihilismo, irracionalidade, pós-modernidade ou até com auto-ajuda, qualificativo que detratores e ressentidos se esmeram em murmurar nos frios corredores da academia. Se a ideia adorniana de que a totalidade é a não verdade é recorrente na totalidade da obra, o desafio parece sinalizar a necessidade de civilizar as ideias, para que seja possível reorganizar todo o processo de conhecimento, dar novo sentido à vida, perceber que sociedade, cultura, cerebralização são aspectos de um mesmo processo de auto-organização complexificador. Mais que isso, as epifanias imaginárias e as desavenças da subjetividade não são meros epifenômenos, mas elementos constitutivos de um processo sócio-histórico que explicita, desde sempre, a unidualidade do Sapiens-demens. Caminhando pelas margens da vida e do conhecimento, fiel à concepcão sintética de vida, elaborada desde a juventude, Edgar Morin exibe suas partes malditas (desordem) e benditas (ordem), sua unidualidade, num esforço de dialogizar sua própria singularidade/universalidade, traduzindo-a num panteão transdisciplinar de ideias que impõem uma reforma do e para o pensamento. Como um bionauta, navegador empedernido da vida, era preciso meditar, refletir e muito sobre a physis, a biocosmologia, o acaso, a biopolítica, o cérebro, numa tentativa de compreender a natureza da natureza, a vida da vida, o conhecimento do conhecimento, as ideias e as identidades, títulos dos cinco volumes publicados de O Método. Se alguém procurar nesses cinco livros um receituário linear de procedimentos e técnicas de pesquisa, pode afastar-se de imediato da leitura. La Metode é uma viagem transversal através de blocos de saber, de metapontos de vista sobre os sistemas vivos, de religações cognitivas, éticas e estéticas que permitem equacionar uma política civilizacional para o planeta como um todo.

Resta saber se essa regeneração ser á efetivada a ponto de colocar um ponto final na idade de ferro planetá-ria. Em 1994, Edgar nos convocava a assumir Sísifo como guia imaginário para nossas ações. Como se sabe, Sísifo foi condenado por Zeus aos Infernos, tendo como castigo rolar um rochedo até o alto de uma montanha, de onde a pedra sempre voltava a cair, em virtude de seu próprio peso. Essa tarefa que nunca dava descanso ao herói, nem lhe permitia fugir de seu vaticínio, deve ser a tarefa de todos aqueles que ainda acreditam que o caleidoscópio de suas vidas e suas ideias vale para alguma coisa. Nos idos de 1995, em uma de suas peregrinações planetárias, foi ele a Sarajevo, cidade onde sérvios bósnios, muçulmanos e croatas se defrontavam pelo controle diabólico de um território que, a rigor, pertencia a todos eles. Na Universidade sitiada pronunciou um discurso em que enfatizava que os atentados à cidade representavam uma agressão à alma do mundo e à pretendida reunificação européia. Lá foi reiterado que a idéia de nação é sempre matripatriótica; lá foi demonstrado que a fragmentação da Europa pós-comunista em conjuntos poliétnicos rivais representa um retrocesso à fraternização planetária; lá foi enfatizado que o destino europeu se encontra preso a uma luta titânica entre forças dissociativas e de ruptura e forças associativas, solidárias e confederadas. Essa luta não se restringe, porém, apenas a um local. Ela atravessa a rede planetária em seu conjunto, como que dominada pela dialogia da pulsão da vida e da pulsão da morte. Ao intitular a homenagem aos 80 anos de Edgar Morin, um humanista planetário, a Unesco soube reconhecer e atualizar o adágio de Antônio Machado que acomete a todos aqueles que se sensibilizam com as infindáveis religações que os saberes culturais ainda terão que realizar: "Caminhante não há caminho, pois o caminho se faz ao andar".

Edgard de Assis Carvalho
GUERRIERO, Silas, in Antropos e Psique - AS ORIGENS DO ANTROPOS, 8ª ed., Olho D’água, 2008.

PADILHA, Tarcísio. Conferência proferida no Ciclo “Razão e Espiritualidade” da Academia Brasileira de Letras, em 29 de agosto de 2006.
, professor do Departamento de Antropologia da PUC-SP.
Fonte: MARGEM, SÃO PAULO, No 16, P. 167-170, DEZ. 2002 

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