"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém" Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios

"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém [...]". (Carta do Apóstolo Paulo aos cristãos. Coríntios 6:12) Tudo posso, tudo quero, mas eu devo? Quero, mas não posso. Até posso, se burlar a regra; mas eu devo? Segundo o filósofo Mário Sérgio Cortella, ética é o conjunto de valores e princípios que [todos] usamos para definir as três grandes questões da vida, que são: QUERO, DEVO, POSSO. Tem coisas que eu quero, mas não posso. Tem coisas que eu posso, mas não devo. Tem coisas que eu devo, mas não quero. Cortella complementa "Quando temos paz de espírito? Temos paz de espítito quando aquilo que queremos é o que podemos e é o que devemos." (Cortella, 2009). Imagem Toscana, Itália.















sexta-feira, 27 de maio de 2011

Santa Igreja Católica Apostólica Romana


Batismo do rei Clóvis em 496.
Por Marilia Carrenho Camillo Coltri
Em algumas situações, após uma aula de 100 minutos sobre Idade Média, Alto Clero, Baixo Clero, Tribunal do Santo Ofício, Pecado da Usura, Santa Inquisição, Venda de Indulgências, escravidão e catequese, etc; meus alunos me olham com um misto de indignação e complacência  e me perguntam curiosos: "Professora, que religião a senhora é?" Encabulada digo: "Católica, não praticante. Não fiz primeira comunhão, catecismo, crisma, isto é, fui cristianizada aos moldes dos povos bárbaros do Império Carolíngio, no século IV (1) e, tal como o rei franco Clóvis (2), porém quando criança, fui apenas batizada, pois minha mãe era a mais devota. Mas foi somente isso! Casei-me na Igreja Católica porque cumpri a penitência de um cursinho de meio sábado intitulado "Como formar uma família cristã". Ah! paguei também uma taxa de R$ 200,00 na época. Foi a permissão que recebi da Santa Igreja Católica Apostólica Romana de receber a benção de um padre que atrasou 1 hora e meia para a cerimônia.
Minha educação foi laica, tenho problemas com a Igreja Católica. Para completar minha formação secularizada fiz Ciências Sociais na PUC de São Paulo que, apesar de ser uma universidade católica, fazia sérias críticas ao poder político, principalmente no regime militar. Tínhamos à frente da pontifícia D. Paulo Evaristo Arns, que sabíamos defendia uma posição, em alguns momentos, ao reverso da própria santa igreja. A igreja apoiou o golpe mas depois rompeu com o regime. Ele usava saias, tal como disse Médici. A invasão da PUC foi um dos três momentos mais difíceis que Arns enfrentou quando então cardeal de São Paulo. Os outros dois foram o assassinato do Vladmir Herzog e do Guilherme Vannucchi Leme, na rua Tutóia, ponto de encontro dos torturadores na época. O que o salvou foi o protocolo existente entre o governo brasileiro e o vaticano, caso contrário ele teria ido para o pau de arara, também.
Minha experiência no terceiro setor fez nascer em mim a consciência crítica da diferença existente entre o assistencialismo e sustentabilidade. Esse meu afastamento da "santa" igreja confunde minhas crenças até hoje. Tenho dificuldades em trabalhar a minha fé. Creio, descrendo. A Teoria da Libertação e a "expulsão" de Leonardo Boff nos anos 80, seu maior expoente, me fizeram refletir. O maior pecado que sofri foi uma evangelização desgarrada da vida concreta. Gosto de ler a Bíblia como um grande livro de história mas procuro trazer essa leitura para a realidade dos fatos. Entrego pouca coisa prá Deus, aliás, absolutamente aquilo que não dou conta no plano material.
Admiro, sem sombra de dúvidas, a trajetória desse Anjo Bom. Pessoas como ela conseguem ver a injustiça não como sendo obra de Deus, mas sim dos homens e não rezam apenas, agem. Porém, são minoria nesse mundo clerical. Esse é um dos grandes motivos da Igreja Católica ter perdido tantos fiéis, a evangelização vinculada a um conformismo miserável, que prega a salvação somente no reino dos céus. As igrejas alternativas vinculam-se ao fato de que o cristão pode ser feliz nesse mundo terreno, elas são calcadas na prosperidade. Não é a miséria que eleva ao reino dos céus. A vida próspera deixou de ser pecado e o povo já sabe disso. Somente a igreja não percebeu.

(1) Primeira fase da da história da Igreja medieval, também conhecida como Império Carolíngio. Ao longo do século IV, os imperadores romanos se aproximaram do bispo de Roma com o objetivo de manter sua autoridade sobre a população que, diante da crise, passava a adotar o cristianismo. Essa época foi marcada pela atuação de numerosos missionários que cruzavam a Europa para atrair novos fiéis para o catolicismo. Copyright Editora Poliedro 2011.

(2) Em 496, Clóvis (que reinou do ano 481 ao 511) converteu-se ao cristianismo e tornou-se um importante aliado do poder papal na cristianização de territórios dominados por diferentes povos bárbaros. Copyright Editora Poliedro 2011.

4 comentários:

  1. Muito interessantes as suas ponderações!
    Curioso saber que não estou só nessa árdua tarefa de exercitar a própria fé, tal qual concebida pelos teóricos do cristianismo...
    Infelizmente, padeço do mesmo mal, o "crer, descrendo", razão pela qual sequer tive coragem de esperar da santa igreja católica a bênção à minha união, consolidada, por isso mesmo, somente perante a "justiça dos homens", em um casamento "no civil".
    Uma dúvida me atormenta: como transmitir aos meus dois maravilhosos filhos, de 4 e 2 anos, um legado do respeito aos mais velhos, aos mais necessitados, à boa-conduta, à honestidade, sem passar pela religiosidade?
    Parece-me que a religião vem exercendo, de há muito - ainda que repleta de vícios -, o nobre sistema de freios e contrapesos de que tanto necessitam as sociedades modernas, para inibir atitudes primitivas como àquelas que tristemente assistimos todos os dias, estarrecidos, na TV e outras mídias, tendo como atores principais jovens e adolescentes acostumados tão-somente à satisfação de suas mais básicas necessidades, autorizados, em nome de seu mais puro hedonismo, a praticarem barbáries como, por exemplo, atear fogo em índios indefesos e mendigos, ou dizerem "I ain't give a shit" para a hierarquia que necessariamente haveria de ser respeitada em uma sala de aula, berço do exercício da vida em sociedade, e viga-mestra do aprendizado da cidadania...
    Pergunto-lhe: é possível educar os filhos sem que seus deslizes - próprios do aprendizado que acompanha o crescimento - sejam embebidos na culpa cristã? É possível trilhar-lhes o caminho da retidão, somente com a doutrina das boas atitudes à tira-colo? Em essência: a ética dá conta?
    Parece-me que a resposta é afirmativa, mas a estrada a ser percorrida, parece-me, torna-se mais longa...

    Saúde, sucesso e vida longa!

    Flávio V. Major (fmajor@jfsp.jus.br)

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  2. Prezado Flávio, como docente da disciplina de ética, na universidade, digo sempre no primeiro encontro com os alunos sobre a proposta da disciplina, a qual pretende contribuir para a formação de futuros engenheiros e tecnólogos. Dentre outras pretensões, está em elucidar uma ética já existente e contida em cada indivíduo. O exercício de priorizar os interesses coletivos em detrimento dos interesses pessoais. Entretanto, jamais ensiná-la. Ética se aprende na fase mais tenra de nossa vida. Exatamente na idade de nossos maravilhosos filhos. Também tenho um pequeno em casa. Aliás, é de pequeno que se torce o pepino, rs... Em “Suemos Todos”, artigo que inaugurou este mais que prazeroso blog – convido-o a lê-lo – digo, inspirada em Tânia Zagury, que educar é uma das tarefas mais árduas que um ser humano pode empreitar. É preciso suar a camisa! Suar como pais e suar como educadores. A que persistirmos, perseverarmos e nunca desistirmos! Como bem diz Kanitz, um dos raros economistas com consciência social, aliás, não tão raro, pois já conheci outros, também socialmente responsáveis e conscientes; devemos definir a ética de nossos filhos antes mesmo das suas ambições. Mas, como diria o esquartejador, vamos por partes. Crianças vêem, crianças fazem. Nosso exemplo é o referencial da conduta ética delas no futuro. Mais do que aqueles “sermões” sem sentido os quais, de maneira insensata, nos pegamos a proferir e que não dão resultado algum; essas preciosas criaturas que estamos formando nos espelham. Esse legado está presente em nós, nas nossas atitudes, em nossa conduta diária; e eles já identificaram isso em nós. São nos pequenos gestos do cotidiano. Um parar o carro para um idoso passar, o aguardar pacientemente a vez numa fila, o devolver o lápis de um coleguinha que vira por engano no estojo. Como diz a Ana Carolina, quanto mais corrupção, mais bandalheira e falcatruas eu vir, mais honesta eu serei, só de sacanagem. A ética dá conta sim!!! Temos que acabar de vez com a lei do levar vantagem em tudo, certo? Errado!!! Os casos de jovens envolvidos em barbáries são um verdadeiro exemplo da ausência completa de limites. Entretanto, meu caro, honestamente, temo pela religiosidade do meu garoto. Como disse, essa educação laica me afetou profundamente e me coloca, constantemente, em graves dilemas...

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  3. Rezo sem fé, acendo vela sem crer. Já me peguei rezando para uma santa e pensando no materialismo histórico dialético. O que falta, ao meu ver, na moçada de hoje, não é religiosidade. Todos eles frequentam a igreja. Várias igrejas por sinal, cada uma com uma linha de pensamento diferente e, conforme disse Durkheim, não é isso que está a desagregar a nossa sociedade orgânica. O que falta é limite. Jargão ou não, não podemos formar uma geração que acha que pode tudo. Nossos pais não podiam quase nada e foi a geração que fez a diferença. Já dizia Jacob Gorender, o maior exercício de liberdade e de cidadania já visto no Brasil ocorreu na época de maior repressão política e de supressão dos direitos civis: a ditadura militar. Hoje se tem “liberdade” e o que fazemos com ela? A igreja trabalha sim e muito com a culpa. Não matarás, pois é pecado. Ora bolas, não matarás porque não temos poder para isso. Não abreviamos a vida das pessoas porque não é civilizado, não é a nossa moral, não praticamos esse tipo de conduta e não porque vamos para o purgatório. Digo aos meus alunos, entrem no site da Cruz Vermelha ou dos Médicos sem Fronteiras, leiam um pouco mais sobre as guerras no Oriente Médio, o conflito de Darfur; verás que o inferno, o purgatório é aqui. Agora, deslizes. Que deslizes uma criança de dois, quatro ou seis anos pode cometer? Meu filho, dia desses, veio pra casa com três cartas Pokémon achadas no colégio. Perguntei-lhe de quem eram e o mesmo disse-me que as havia achado e que achado não era roubado. É nessas horas que a gente respira fundo e busca num raio de 10 ou 15 dias, algo que sirva de exemplo para eles perceberem o que é certo e o que é errado. Consegui achar, “graças à Deus” e ele entendeu. No dia seguinte entregou as cartas à professora e aprendeu mais uma lição. Encerrando, vou lembrar um pouco meu falecido pai, que era ateu e comunista, que viveu por uma ideologia e trilhou uma vida inteira pautada na ética. Ele foi o responsável por eu não ter feito o catecismo, a primeira comunhão e a crisma; entretanto me passou uma das maiores lições de vida que uma pessoa pode transmitir a um filho: a honradez, a ponderação, a ética. E ele dizia: “Sou ateu, graças a Deus”. Transmita sua ética e não permita que seus ensinamentos tornem-se “poeira no vento”. Um abraço.

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  4. Oi professora!
    Bom gostei muito do seu texto, particularmente eu adoro fatos históricos. A igreja catolica por sua vez me intriga muito, eu também só fui batizada e nunca tive nenhum outro tipo de relação com a igreja. Na minha casa ninguém tem um religião concreta e isso me proporcionou ter um olhar igual para todas.
    Mas uma das únicas religiões que não me chamou nunca a atenção foi a católica, por todos os conflitos que ela causou ao decorrer da história. Mas sei também que existe seu lado bom em tudo, então não se pode julgar todos pelas ações de alguns.

    Raíssa Bertasi 3ºem

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