"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém" Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios

"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém [...]". (Carta do Apóstolo Paulo aos cristãos. Coríntios 6:12) Tudo posso, tudo quero, mas eu devo? Quero, mas não posso. Até posso, se burlar a regra; mas eu devo? Segundo o filósofo Mário Sérgio Cortella, ética é o conjunto de valores e princípios que [todos] usamos para definir as três grandes questões da vida, que são: QUERO, DEVO, POSSO. Tem coisas que eu quero, mas não posso. Tem coisas que eu posso, mas não devo. Tem coisas que eu devo, mas não quero. Cortella complementa "Quando temos paz de espírito? Temos paz de espírito quando aquilo que queremos é o que podemos e é o que devemos." (Cortella, 2009). Imagem Toscana, Itália.































sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

CLASSE SOCIAL, ESTADO E IDEOLOGIA

Bruno de Assis Furquim*
 Francisco Diogo Neto* 
Lucimar Aparecida Rosa* 

RESUMO: O texto analisa a reprodução de uma aula para concurso junto ao Departamento de Sociologia da FFLCH – USP, na qual o autor tenta articular o tríptico Classe Social, Estado e Ideologia, tendo em mente situação contemporânea empírica e teórica dos três conceitos.

Unitermos: Estado. Trabalho. Ideologias. Classe Social. Crise.

O autor declara que a tarefa de articular teoricamente os conceitos de classe social, Estado e ideologia torna-se cada vez mais complexa, pois esses conceitos sofreram grandes transformações nas últimas décadas.
Apoiado no trabalho de diversos estudiosos inicia a sua apresentação pelo conceito de Estado a partir dele, aborda os outros elementos.
O Estado moderno, desde o século XVI, é uma instância que estabelece a ordem e sua principal tarefa e característica é a administração dos conflitos que acontecem na sociedade, por diferentes razões.
Para atingir esse objetivo, o Estado se organiza e elabora procedimentos capazes de promover consenso nas situações conflituosas. Ao criar a possibilidade de consenso, se legitima e podendo assim dizer que o processo de democratização de uma sociedade é um processo de organização do Estado. Caso isso não aconteça, esse Estado sofre uma crise de legitimidade.
Os conflitos que permeiam a sociedade atual, segundo Habermas, são conflitos de classes, mas há um questionamento quanto a ser a classe, hoje, definidora de identidades coletivas, uma vez essa sua qualidade foi enfraquecida.
Outra característica importante do Estado moderno é que ele não realiza a atividade econômica. A ele compete organizar as condições para que ela seja realizada pelos cidadãos. Mas para obter os recursos necessários à sua ação precisa tributar essa mesma atividade. Há, portanto, uma distinção e uma complementação entre Estado e sistema econômico.
O processo econômico gera inúmeros conflitos e é tarefa primordial do Estado moderno é refreá-los e levá-los para o âmbito do sistema político, que é o espaço institucionalizado de discussão e busca de consenso. A ele cabe impedir que os efeitos danosos do processo econômico recaiam sobre os indivíduos. Isso se dá pelas garantias e direitos sociais oferecidos pelo Estado: saúde, previdência social, lazer, educação, entre outros.
Segundo o autor, não se pode afirmar que permanece inalterada, para a sociedade contemporânea, a ideia difundida por Marx de que na sociedade capitalista há três grandes classes: dos capitalistas, dos assalariados e dos proprietários de terras.
Se dissermos que essa estratificação permanece inalterada, teremos que admitir que as estruturas e formas básicas do capitalismo organizam e determinam a sociedade e que existe a oposição irreconciliável entre capital e trabalho.
A posição contrária nos leva à conclusão de que nos tornamos uma sociedade industrial em que o capital e o trabalho podem conviver de forma mais harmoniosa, agindo em comum para atingir interesses em comum. Nenhuma dessas respostas é satisfatória, porque a sociedade moderna tem características de uma sociedade capitalista avançada e não de uma sociedade industrial, considerando a própria descaracterização do trabalho, enquanto força motriz da economia. Mesmo nos Estados mais desenvolvidos, em que todos têm casa, educação, sistema de segurança e saúde, o conflito persiste com intensidade. E o que permite constatá-lo de forma mais evidente é o desemprego.
Na configuração básica do capitalismo era necessária uma massa de desempregados, para garantir que o custo do trabalho não ultrapassasse os interesses do capital: o chamado exército de reserva. Hoje este grupo está se ampliando cada vez mais. E, ao mesmo tempo, houve um envelhecimento do trabalho como categoria-chave explicativa.
No curso do século XIX e início do século XX, o trabalho tornou-se uma categoria fundamental e determinante para a compreensão do mundo. Glorificado, tornou-se a substância da sociedade. Contudo, atualmente, nem o trabalho, nem os trabalhadores surgem como um princípio fundamental que ordena, organiza ou determina a sociedade.
O setor secundário necessita cada vez menos de trabalhadores, que acabaram migrando para o setor terciário da economia. Acontece que este setor não oferece as mesmas condições que aquele. Os que nele ingressam recebem baixa remuneração e sofrem com a alta rotatividade. A identidade que o trabalho fornecia torna-se opaca e dentro da esfera do trabalho desenvolveram-se sub-esferas, que se conflitam, resultando na sua fragmentação.
A própria ética do trabalho sofreu um enfraquecimento, por várias razões, entre elas a perda do poder das tradições religiosas e seculares que prescreviam o trabalho como dever; a desvalorização da criatividade e da experiência; diminuição das horas de trabalho; crescimento do desemprego estrutural que o torna uma experiência normal e comum etc. A banalização da tragédia social do desemprego.
O resultado é que o trabalho, ao lado da pobreza e da devastação do meio ambiente se tornou um dos centros de conflitos, necessitando de ações regularizadoras para que a legitimidade do Estado permaneça.
Na visão do autor, as diferenças de classe se converteram, em parte, na diferença entre os que têm trabalho e os que não têm.
O Estado vê-se confrontado com problemas graves, na medida em que o pleno emprego parece não ser mais possível. A disparidade da renda tem crescido não só entre empregados e desempregados, mas entre os trabalhadores com maior nível de instrução e os menos instruídos. E essa diferença tende a aumentar, uma vez que os filhos das famílias mais pobres tendem a serem menos instruídos.
O Estado é chamado a mediar esses conflitos, pois a sua persistência coloca em xeque a legitimidade da sua soberania. As soluções para essa questão são onerosas, e seu custo recai sobre o capital e os que estão empregados. Assim, acabaram por gerar uma solidariedade entre eles. Ambos têm interesse em diminuir a carga tributária e previdenciária. Em meio a tudo isso as finanças do Estado desmoronam.
Há alternativas mais conservadoras, como o imposto de renda negativo que garante uma renda mínima e outras mais transformadoras, como a que garante um trabalho mínimo, que por sua vez garante a participação na produção e na distribuição social da riqueza.
Em meio a essas transformações, surgem novos movimentos sociais. Pessoas com necessidades e interesses comuns se organizam e passam a reivindicar mudanças e direitos: movimento das mulheres, dos homossexuais, dos ecologistas etc. e são eles que têm articulado definições de identidades coletivas e, portanto, questionam a legitimidade do Estado contemporâneo. Esses movimentos sociais aparecem como instrumentos de repolitização do domínio público e de revitalização da sociedade civil.
Quanto à questão da ideologia, os conflitos políticos e econômicos são diluídos através de mecanismos de alienação que transformam o indivíduo em cliente das burocracias estatais dominantes.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

WAIZBORT, Leopoldo. Classe social, Estado e ideologia. Tempo Social; Ver. Sociol. USP, São Paulo, maio de 1998.

*Acadêmico do 2º Semestre, do Curso de História, da Faculdade de Educação, do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Itu/SP. 2010.
*Acadêmico do 2º Semestre, do Curso de História, da Faculdade de Educação, do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Itu/SP. 2010.
*Acadêmica do 2º Semestre, do Curso de História, da Faculdade de Educação, do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Itu/SP. 2010.
Disciplina de Introdução às Ciências Sociais - Professora Esp. Marilia C. C. Coltri


O Estado Moderno é realmente uma instância implementadora da ordem?


William de Miranda Paixão*
Fabiana Lovatto*
Vanessa da Silva Souza*
RESUMO

Este artigo, baseado no texto “Classe social, Estado e ideologia”, do autor Leopoldo Waizbort, tem como objetivo tentar compreender se realmente o Estado programa a ordem, e se isso que seria um dever acotece ou é apenas uma ideologia.

Palavras-chave: Ordem Social. Estado. Legitimidade.

A palavra Estado, a priori, pode ser conceituada como posição social, ou ainda, como conjunto de poderes políticos de uma nação. Baseado neses conceitos do dicionário, surge algumas indagações: squal seira o verdadeiro papel do Estado moderno? Qual sua função? Abaixo, uma citação muito pertinente:

O Estado moderno, desde o século XVI, é uma instância implementadora da ordem. É isto, aliás, que lhe justifica o adjetivo “moderno”: pois o próprio conceito do moderno implica, em sua história conceitual (no que diz respeito ao Estado), a ideia da “ordem”, do fim da guerra – civil e entre as nações – e a ideia da paz, preferencialmente da “paz perpétua”.(WAIZBORT, 1998).

O autor Waizbort tem uma ideia clara de que o Estado é uma “instância implementadora da ordem”, o que já se revela apenas uma ideologia. Ideologia por que isso não acontece de fato, pode até ser que há tentativas de fazer com que tal ordem aconteça, porém, a questão é muito mais abrangente quanto parece.
É certo que o Estado deve (e isso é irrevogável) administrar os possíveis conflitos, que isso siginificará, consequentemente, evitar que a sociedade se desintegre (WAIZBORT, 1998), ou seja, se tivessemos uma ordem no Estado os conflitos seriam amenizados ao ponto de talvez nem existirem mais. Emilie Durkheim também tem uma ideia sobre oque seria (ou o que deveria de ser) um Estado:
O papel do Estado, com efeito, não é exprimir, resumir o pensamento irrefletido da multidão, mas sobrepor, a esse pensamento irrefletido, um pensamento mais meditado e, por força, diferente. É, e deve ser foco de representações novas, originais, as quais devem por a sociedade em condições de conduzir-se com maior inteligência que quando é simplesmente movida dos sentimentos obscuros, a agir dentro dela. (DURKHEIM, [s.d.]).

Estado é um grupo dentro da sociedade que clama para si o direito exclusivo de controle total. E a grande dúvida QUE paira no ar. Por que isso é permitido, essa ideia de Estado, de poder? É aqui que a ideologia entra em cena mais uma vez.
A realidade do Estado é inquestionável e, muitas vezes, trata-se de uma máquina de manipulação, de poder à mostra. Aliás, por quê sequer toleramos sua existência? A própria ideia de instituição Estado é até um pouco inaceitável porque é preciso que ele mude seu jeito para que seja visto de uma maneira “boa” para que consiga apoio popular.
Com isto, podemos voltar ao assunto de “ordem”. Seriam esses conflitos que acontecem no Estado a luta entre classes sociais? Certamente, e, pode não ser a principal causa dos conflitos, mas é a mais visível e notória na sociedade de um modo geral.
Então, havendo essa “guerra”, seria o dever do Estado pelo menos manter o bem-estar social, o que não é visto hoje dia na modernidade.

Compreensão do bem-estar como direito do cidadão é dever do Estado, pois é o único ator que detém a autoridade coativa, para garantir esse direito de forma desmercantilizada. (STEIN, 2000, p.164).
Quanto mais insignificante for aquilo que, tomado em si mesmo, nos aflige, tanto mais nós somos felizes, pois é preciso um Estado de bem-estar para nos impressionarmos com bagatelas: na infelicidade, nunca as sentimos. (SCHOPENHAUER, 2006).

Pelos princípios do Estado de bem-estar social, todo o indivíduo teria o direito, desde seu nascimento até sua morte, a um conjunto de bens e serviços que deveriam ter seu fornecimento garantido seja diretamente através do Estado ou indiretamente por este. Porém, surgem as ONG’s, com o intuito de tapar esta grande brecha que o Estado deixa, já que o mesmo não consegue assegurar todos os direitos sociais necessários para a sociedade. Esses direitos incluiria a educação, a assistência médica gratuita, o auxílio ao desempregado, à garantia de uma renda mínima, recursos adicionais para a criação dos filhos, etc. A seguir, o que diz a Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã, no tocante ao Artigo 6º sobre os Direitos Sociais:

Art. 6º - São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL, 1988)

Enfim, mediante a todos esses argumentos e citações, pode-se ter um panorama geral de que a ordem social, numa sociedade moderna, é mais difícil de impor do que se pode imaginar, e a criação de ideologias, que é a doutrina legitimadora do Estado, nada adianta, afinal, o correto é agir, e não viver à base de ideologias. “A maior riqueza que uma nação pode ter é uma massa pensante, a maior pobreza que uma nação pode ter, é uma massa pensante sem atitude.” (VARPECHOWSKI, [s.d.])


REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição (1988). Artigo 6º - Direitos Sociais. Disponível em:
. Acesso em 25/11/2010.

O Papel do Estado e o “Welfare Mix”. Disponível em: . Acesso em 19/11/2010.

SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos sobre a Sabedoria da Vida. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

WAIZBORT, Leopoldo. Classe social, Estado e ideologia. Tempo Social; Revista Sociologia. USP, São Paulo, 10(1): 65-81, maio de1998.



*Acadêmico do 2º Semestre do Curso de História da Faculdade de Educação, do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio - Itu/SP. 2010.
*Acadêmica do 2º Semestre do Curso de História da Faculdade de Educação, do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio - Itu/SP. 2010.
*Acadêmica do 2º Semestre do Curso de História da Faculdade de Educação, do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio - Itu/SP. 2010.

Disciplina de Introdução às Ciências Sociais - Professora Esp. Marilia C. C. Coltri

A Ilegitimidade do Estado Moderno: uma possível discussão



Camila A. Guedes*
Ricardo Brassarola Júnior *


RESUMO: Este artigo propõe-se a discutir os conflitos inerentes ao processo de “crise” de legitimidade do Estado Moderno, enquanto normalizador de conflitos e produtor de consensos. Para tanto, utilizaremos o artigo de Leopoldo Waizbort, como base para a construção dos nossos argumentos acerca do tema abordado.


Palavras-chave: Crise. Estado. Desemprego.


 A sociedade que está para ser libertada dos grilhões do trabalho é uma sociedade de trabalhadores, uma sociedade que já não conhece aquelas outras atividades superiores e mais importantes em benefício das quais valeria a pena conquistar essa liberdade. Dentro dessa sociedade, que é igualitária porque é próprio do trabalho nivelar os homens, já não existem classes nem uma aristocracia de natureza política ou espiritual da qual pudesse ressurgir a restauração das outras capacidades o homem. (ARENDT, 2004, pg. 12).



Há uma nova perspectiva que no presente se impõe no contexto da articulação entre Estado moderno e o advento das recentes formas como se apresentam as divergências sociais inseridas dentro de uma economia capitalista avançada. Como é possível a esse Estado manter a legitimidade perante as novas condições sociais, sem que para isso necessite interferir demasiadamente no sistema econômico capitalista, uma vez que ele sempre procurou permanecer relativamente neutro diante do processo produtivo?
Tradicionalmente se reconhece que o Estado, dentro de uma visão moderna, ou seja, sendo constitucional, de direito e democrático, tem a função precípua de administrar os conflitos da sociedade, levando-os à esfera pública com o objetivo de alcançar um determinado consenso, e assim garantir a reprodução da sociedade. Além disso, tal Estado é não apenas incumbido de assegurar a continuidade do sistema econômico com o mínimo de interferência como também proteger os direitos dos indivíduos. Caso não seja mais capaz de dirimir os conflitos que se façam sentir dentro do conjunto do tecido social então o Estado estará diante de grandes dificuldades institucionais e terá um grave problema de legitimidade.
            Considerando a importância desse fenômeno para a organização estrutural da sociedade - que se classifica como “a frente de seu tempo” -, o presente artigo tem por finalidade, construir uma breve discussão acerca das conseqüências resultantes do processo de “crise” estrutural do Estado Moderno, tendo em vista, a complexidade do tema, bem como extenso debate que se constrói a partir das abordagens dos mais diversos autores, engajados nas mais diversas correntes de pensamento.
            Em função das limitações que determinamos, nossa abordagem terá como enfoque principal, a discussão acerca de alguns fatores que surgem como conseqüência da falta legitimidade do Estado, - dentro do panorama atual dos acontecimentos -, fazendo com que ocorra uma redefinição do seu papel enquanto instância “implementadora da ordem” (WAIZBORT, 1998).
            Comecemos com um problema de caráter essencialmente conflituoso: a questão da atual divisão da sociedade em classes, sob as quais o trabalho de Marx[1] resiste ao tempo, se tornando a principal referência para a discussão acerca dessa divisão.
Contudo, a partir da análise do artigo de Leopoldo Waizbort[2], observamos que, o principal definidor dos conflitos inerentes a sociedade pós-moderna, é a questão dos antagonismos de classes, ou seja, como nos diz o próprio autor: “os conflitos que perpassam a sociedade contemporânea são conflitos de classe” (WAIZBORT, 1998). No entanto, a sociedade contemporânea não se mostra mais configurada como classicamente em assalariados e proprietários, já não possui a mesma conformação cujas características o referido Estado até então foi capaz de preservar e regularizar com a pacificação dos conflitos, com garantia de segurança e trabalho, pois com o capitalismo industrial e seu desenvolvimento tecnológico a situação do desemprego estrutural e o processo de precarização do trabalho, causando sua fragmentação, retirou do trabalho o seu princípio fundamental ordenador e estruturador da sociedade.
Por conseguinte, a partir dessa conjuntura é que o trabalho se torna a questão essencial dos conflitos e o fator necessário da contestação da legitimidade do Estado, na medida em que este se torna incapaz de garantir o pleno emprego e acaba por permitir a condição incongruente da desigualdade. Assim, tem-se a divisão da sociedade em trabalhadores plenos, subempregados e desempregados. Outrossim, estabelece-se uma solidarização entre capital-trabalho em defesa de interesses em comum, demandando menor carga tributária e previdenciária, em detrimento dos interesses dos que não têm emprego sendo que, nesse ponto, o Estado atinge o momento culminante de crise na sua legitimação.
Outro agente que vem exercer uma função ainda mais constritora em torno da questão da legitimidade do Estado é o fenômeno dos novos movimentos sociais reivindicatórios, promovidos por minorias que se organizam em prol da defesa de interesses em comum, e passam a definir, dessa maneira, novas identidades coletivas. Esses movimentos, além de contestarem a legitimidade do Estado, surgem como formas de repolitização da esfera pública e “é justamente nos interstícios entre sistema e mundo da vida que se desenvolvem os novos potenciais de resistência, emancipação e protesto nas sociedades avançadas” (WAIZBORT, 1998). 
Por fim, é necessário destacar que aquele Estado que procurava administrar os conflitos da sociedade através das rotinas burocráticas e procedimentos adequados de consenso legitimava-se inequivocamente por meio de uma plataforma ideologicamente construída e definidora das identidades coletivas, a qual se empenhava em diluir os conflitos “através de mecanismos de alienação que transformam o indivíduo em clientes das burocracias estatais dominantes” (WAIZBORT, 1998), mas cujas bases, portanto, enfraqueceram-se na proporção em que tais identidades foram sendo alteradas, seja em virtude da modificação da condição estrutural do trabalho ou dos novos movimentos sociais.



REFERÊNCIAS

ARENTD, Hannah. A condição humana. 10ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.
MARX, Karl. O Capital. Vol. 3. São Paulo: Abril, 1985.
WAIZBORT, Leopoldo. Classe social, Estado e Ideologia. Tempo Social; Ver. Sociol. USP, S. Paulo, 10 (1): 65-81, maio de 1998.




* Acadêmica do 2º Semestre do Curso de História, da Faculdade de Educação, do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio, Itu/SP. 2010.
* Acadêmico do 2º Semestre do Curso de História, da Faculdade de Educação, do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio, Itu/SP. 2010.

Disciplina de Introdução às Ciências Sociais - Professora Esp. Marilia C. C. Coltri

[1] MARX.K. (1985) O Capital. Vol. 3. São Paulo, Ed.Abril.
[2] Graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1987), Mestre pela mesma Universidade (1992), Doutorado (1996), e livre-docente (2003). Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo, atuando nas áreas de sociologia da cultura, teoria sociológica, historia da sociologia, dentre outras.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Faltando com a História

 

Márcia Novaes Guedes¹
“A engenheira Elza Maria Lianza, de 25 anos, presa no Rio, narrou em seu depoimento, em 1977:

[...] que a interrogada foi submetida a choques elétricos em vários lugares do corpo, inclusive nos braços, nas pernas e na vagina; que o marido da interrogada teve oportunidade de presenciar essas cenas relacionadas com choque elétrico e os torturadores amplificavam os gritos da interrogada, para que os mesmos fossem ouvidos pelo seu marido”.

Esse depoimento e muitos outros está no livro BRASIL NUNCA MAIS __ UM RELATO PARA A HISTÓRIA [editora Vozes, 5ª edição], livro que conta os horrores da ditadura brasileira de 1964-1985.

“De joelhos, em praça pública, pedindo perdão ao povo brasileiro”! Essa foi a sentença do jurista Fabio Konder Comparato, lançada, numa carta indignada, ao editorialista e ao diretor do Jornal Folha de São Paulo.

A ira de Comparato é justa. Na edição de 17/02/09, a Folha definiu a ditadura brasileira de DITABRANDA. De acordo com os donos do jornal, o regime instaurado com o golpe de estado de 1º de abril de 1964, que rompeu com a ordem constitucional, expulsou o Presidente da República, eleito democraticamente, torturou, matou e exilou inúmeros brasileiros e brasileiras, se comparada a outros regimes, não foi dura, mas branda.

Diante das cartas, indignadas, de Comparato e da socióloga e professora da USP Maria Victoria de Mesquita Benevides, a Folha baixou o nível e xingou os dois. A defesa de ambos veio num manifesto com mais de 3 mil assinaturas, que circulou na internet em pleno carnaval, e a Folha se desculpou.

Para a professora Maria Victoria de Mesquita Benevides, “o que explica essa inacreditável estupidez da Folha de São Paulo é um insidioso revisionismo histórico conduzido por certos políticos acadêmicos e jornalistas” [Carta Capital, 04/03].

O episódio protagonizado pela Folha não é inédito, tem precedentes históricos e consequências funestas. O maior pesadelo que torturava os prisioneiros dos campos de concentração e extermínio nazistas era __ se sobrevivessem __ descrever para os homens livres sua triste história e não serem acreditados. Viver para contar, essa foi a razão que alimentou Primo Levi a lutar pela sobrevivência em Auschwitz.

Primo Levi era um jovem químico com um futuro brilhante, mas em 13 de dezembro de 1943, aos 24 anos de idade, foi capturado pelos fascistas e, como era italiano descendente de judeus, foi levado para o campo de concentração de Fossoli, perto de Modena, província de Bolonha.

Em Fossoli, ele conviveu, por alguns meses, com centenas de outros prisioneiros, homens, mulheres e crianças. Num determinado dia, todos foram informados de que iriam partir no dia seguinte. Por informações dos refugiados poloneses e croatas, eles sabiam que “partir” significava Auschwitz, o maior campo de extermínio dos nazistas.

Em Se Questo è Un Uomo [Se isto é um homem] __ obra recusada por diversas editoras e publicada 13 anos depois da Guerra __ Primo Levi descreve a pavorosa noite da véspera da partida. Particularmente, considero essa passagem a mais sincera homenagem a nós mulheres, por isso transcrevo-a na íntegra:

“E veio a noite, e foi uma noite tal, que se sabe que olhos humanos não deveriam assistir e sobreviver. Todos sentiram isso: nenhum dos guardas, quer italianos, quer alemães, teve ânimo de vir ver que coisa fazem os homens quando sabem que vão morrer. “Cada um se despediu da vida do modo que melhor lhe competia. Alguns rezaram, outros beberam além da conta, outros se inebriaram de nefasta e última paixão. Mas as mães vigiaram e prepararam com doçura e cuidado o alimento para a viagem, lavaram as crianças, fizeram as bagagens; ao raiar do dia, os varais estavam cheios de roupas infantis estendidas ao vento para enxugar; e não esqueceram as fraldas, e os brinquedos, e os travesseiros, e centenas de pequenas coisas que elas bem sabem, e das quais as crianças sempre necessitam em qualquer caso. Não fariam também vocês a mesma coisa? Se fossem mortas amanhã com suas crianças, vocês não lhes dariam hoje o que comer?”

Animado pela idéia de não permitir que aquele crime contra a humanidade, praticado no corpo de judeus e ciganos, se repetisse, Primo Levi publicou muitas outras obras e realizou dezenas de conferências em toda a Europa. E, em 1986, publica seu último livro: I Somersi e i Salvati [Afogados e Salvos]. Este livro surge, precisamente, quando ele sente que forças se erguem para cancelar a história e reabilitar politicamente o nazismo.

Em Junho de 1986 se trava o confronto entre o historiador Ernest Nolte e o filósofo Jürgen Habermas. O debate se desenvolve em torno das teses do primeiro. Segundo Nolte, o genocídio nazista teria sido uma resposta ao terror comunista; a conquista do Leste Europeu entre 1944-1945 teria sido uma escolha patriótica do exército alemão e não uma estratégia para sustentar o prosseguimento, em modo ainda mais radical, do extermínio; e Auschwitz teria sido apenas uma mera inovação tecnológica.

Primo Levi não viveu para ver o extermínio do povo palestino pelos judeus. E, diante das evidências de que o mundo caminhava para fazer tudo de novo, preferiu por fim a própria vida. Contemporaneamente, um bispo mereceu a mais veemente reprovação pública mundial e foi expulso da Argentina por ter negado o genocídio dos judeus. Israel, porém, prossegue incólume, exterminando crianças, mulheres e adolescentes palestinos.

Em sua carta para a Folha de São Paulo, Fabio Konder Comparato deixa a lição que todo cidadão não deve esquecer: “Quando se trata de violação a direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar importâncias e estatísticas”. Ao se referir a Auschwitz, Hannah Arendt lembra a mesma coisa, não importam os números. “Lá aconteceu qualquer coisa com a qual não podemos nos reconciliar. Nenhum de nós pode.”

Para equacionar o dilema entre a angústia da morte e o desejo da imortalidade é que os humanos desenvolveram o culto da memória e inventaram a história. Mas, diante de fatos que nunca poderiam ter acontecido, surge o paradoxo da memória. Lembrando Hegel, Hannah Arendt ensina que, a obrigação do intelecto é compreender o acontecido. Quando compreendemos nos reconciliamos com a realidade. Então, o objetivo da compreensão é o de se colocar em paz com o mundo. Se a mente é incapaz de pacificar e reconciliar, se torna prisioneira da própria guerra __ conclui Arendt. Assim, a reconciliação se dá por meio da apuração rigorosa dos fatos, único modo de compreender qual foi o papel que cada um desempenhou.

O Beatle John Lenon costumava dizer: “Não confie em ninguém com mais de 30 anos!” Hoje, é precisamente o contrário. A moçada com menos de 30 anos deve cuidar para não ficar “boiando em espumas” e depois se lamentar dessa nossa história pendular, que oscila entre ditadura plena e democracia relativa.

05 de março de 2009.
¹A autora é Juíza do Trabalho, autora do livro Terror Psicológico no Trabalho [LTr, 3ª edição], Doutora pela Universidade de Roma e membro do IBDT e da AJD.  

terça-feira, 9 de novembro de 2010

TENHA ORGULHO DOS SEUS HUMILDES ANTEPASSADOS

Mensagem aos que pesquisaram com carinho
"São as pessoas humildes que eu procuro,
O sal da Terra, por assim dizer,
Aqueles que domaram o solo bruto,
E fizeram nele as sementes florescer.

São estes que eu gosto de encontrar,
Quando mergulhada na estrada da genealogia.
E é apenas por orgulho que me deixo levar,
Refazendo seus passos para assim os imortalizar.

Aqueles que buscam o passado com sonhos de glória,
De encontrar heróis e ducados em cada história,
Não devem jamais se desapontar
Ainda que descobrirem que os humildes antepassados
Tinham somente as estrelas para contemplar."

G. McCoy
The Sunny Side of Genealogy,
Compiled by Fonda D. Baselt,
Genealogical Publishing C.,Baltimore, 1988, p.10
Tradução livre Lea S. Beraldo


"Ao buscarmos nossas raízes históricas mais próximas, por certo não vamos encontrar, salvo exceções, nobreza titulada com direito a brasões e heráldica. Se formos guiados pela sensibilidade, no entanto, certamente encontraremos muita nobreza de alma nessa sofrida gente, em sua maioria imigrantes, galhardos de coragem e de esperança. Muitos saíram de suas cidades ainda jovens, outros com suas famílias, filhos pequenos, aventurando-se numa viagem longa e cansativa, na ânsia de uma vida melhor. Partiram de estações de trem de todas as partes da Europa e Ásia. Deram o seu último adeus àquelas imponentes cidades, às quais não mais tornariam. Terras que viram o crescer e o desenrolar de suas vidas e de seus ancestrais por anos e anos. Era lá que estavam felizes e que ficariam sepultados." (BERALDO, 1999)

Soa o apito do navio e a dor da partida. Tomaso Di Savoia, Citta di Roma, Kasatu Maru, Ativita.

Bate uma certa dor em nossa alma, um aperto no peito e um nó na garganta. Quando lembramos nesse instante, perdidos em nossas parcas lembranças de tempos longínquos, corremos o risco de chegar às lágrimas. Como podemos ter saudade de tempos que não vivemos. Mas, quando buscamos informações dessa época, uma simples fotografia, um xale, um relógio de bolso cujos ponteiros certamente marcou as horas da partida ou uma caneta quebrada que por certo ajudou a escrever essa história que ora resgatamos, algo nos conforta. Estamos resgatando parte de nós que se perdeu no tempo, somos filhos, netos e bisnetos teimosos que refazemos os passos de nossos honrados antepassados, movidos pelo puro sentimento de amor, carinho e respeito.

"Certamente não os conhecemos, morreram antes de nosso nascimento." (op.cit) Você os conhece? Realmente és um ser privilegiado. Agradeça a Deus por isso e ouça, ouça todas as histórias, todos os causos, em todas as repetidas e incessantes vezes ela for contada. Grave-as para mostrar a seus filhos e netos. Não perca esses registros. Vivemos também de nossas lembranças, construímos assim nossa identidade.

Todos os objetos que guardamos, certamente não serão os únicos bens que herdamos. Há outros ainda mais preciosos que vocês deverão carregar consigo e que jamais ninguém haverá de roubá-los. Vossas lembranças. Essas serão eternas.


 Marilia Coltri
Inspirada por Lea S. Beraldo

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Suemos todos!

Disponível em: <http://www.flickr.com/photos/anarvoreluz/2196162895/>. Acesso em 15/08/12

 

Somos todos UM

"Nenhum líder vai nos dar paz, nenhum governo, nenhum exercito, nenhum país. O que nos vai dar paz é a transformação interior que nos conduzirá à ação exterior. A transformação interior não é isolamento, desistência da ação exterior. Ao contrario, só pode haver a ação correta quando há o pensamento correto, e não existe pensamento correto quando não existe autoconhecimento. Sem conhecer a si mesmo, não existe paz." Krishnamurti

Marilia Carrenho Camillo Coltri

Certa vez, lendo um livro da pedagoga e filósofa carioca Tânia Zagury, marcou-me um trecho que socializo com vocês: ”São essas lutas que temos de travar com nossos filhos, dia após dia, hora após hora, minuto após minuto. É uma tarefa árdua, longa e cansativa, porém é a melhor forma para nos levar a ter filhos cidadãos, conscientes dos seus deveres e direitos (...)" Zagury. T. (2006).
Educar é uma das tarefas mais árduas que um ser humano pode empreitar. É preciso suar a camisa! Suar como pais e suar como educadores. A que persistirmos, perseverarmos e nunca desistirmos! Outro dia recebi um email que falava da importância de preservarmos o meio ambiente para as futuras gerações. Penso que, mais importante ainda que preservarmos o meio ambiente para as gerações futuras temos a hercúlea tarefa de formarmos uma geração melhor e mais ética, do ponto de vista moral, para habitar o planeta futuramente. É de pequeno que se torce o pepino, diz o conhecimento empírico popular. Não se sabe se na horticultura isso é uma regra, mas em educação o é. Ética se ensina desde pequeno. Parafraseando o economista Stephen Kanitz devemos definir a ética de nossos filhos antes das suas ambições.
Futuramente, quando estes forem colocados diante de suas escolhas, principiando o exercício do livre arbítrio, alicerçados por nós, deverão escolher pela opção mais ética, mesmo que essa malogre seus objetivos. Quando perceberem que não poderão alcançar seus objetivos e metas, tenderão a recuar em suas ambições e não reduzirão o seu rigor ético.
O que nos assusta é que muitas crianças e jovens, encorajados por seus pais, tendem a burlar a regra, fraudar o código de conduta ética contido no contrato de convivência social; para alcançarem seus objetivos, suas ambições.  Uma das grandes preocupações apresentadas pelos pais de hoje restringe-se ao fato de seus filhos não demonstrarem uma ambição razoavelmente exacerbada. Suas parcas aspirações não convencem seus pais de que serão adultos conjugadores do verbo “ter”.
Não devemos pressionar nossas crianças e jovens a serem ambiciosos, ou melhor, não devemos cobrá-los a demonstrarem suas ambições precocemente. O problema não está em ser ambicioso. Isso é positivo, na medida em que respeitamos o código de conduta ética do grupo social ao qual estamos inseridos. A questão está em definirmos a ética a priori das ambições. O desafio consiste em termos como nossa maior ambição, tornar mais éticas as novas gerações, começando por nossos filhos. E vale lembrar "a ambição nunca pode anteceder a ética. É ela que tem que preceder a ambição" Kanitz. S. (2001). Não deixemos nossos filhos à deriva, como barquinhos de papel em pleno oceano tempestuoso.


Bibliografia
ZAGURY, Tânia. Limites sem Trauma: construindo cidadãos. Rio de Janeiro: Record, 2006. p 48.
KANITZ, Stephen. et. al. Ambição e Ética. Revista Veja, São Paulo, 24 jan 2001. p. 21.